Ocorreu um erro neste gadget

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Os sorridentes bovinos vão felizes cantando na fila do abatedouro



Henrique Morgantini

A notícia da semana, além da terrível queda do avião na Colômbia, do anúncio da venda da Celg para a Enel Brasil e das votações do Pacote Anticorrupção e da temerosa PEC 55/241 (a do fim do mundo), foi outra. E passou longe dos holofotes e das disputas ideológicas e políticas com larga cobertura da imprensa.
A notícia da semana, possivelmente do ano, da década e do século, já que pode haver um impacto em larga escala e a longo prazo no cenário econômico brasileiro é a sanção da lei pelo presidente Michel Temer tirando a obrigatoriedade da Petrobras em explorar o Pré-Sal nacional sozinha.
Há um eufemismo clamoroso na afirmação e em como ela é repassada à população. Porque “retirar a obrigatoriedade” é, na verdade, tirar a exclusividade. Que, por fim, significa permitir que petrolíferas internacionais – com ênfase às americanas – possam vir aqui retirar e explorar estas riquezas.
Estamos abrindo para as gigantes do capital estrangeiro a chance de explorar e retirar de nosso subsolo o nosso maior patrimônio desde o Pau Brasil e o Ouro. Passados quatro séculos, nada mudou na relação colonialista do Brasil com o mundo exterior: seguimos sendo explorados e saqueados. E, agora, permitindo isto com ares de “coisa boa”.
Tão impressionante quanto a notícia em si é a versão dada pelo Governo Federal para a decisão. Segundo o presidente Temer, a decisão é um benefício ao Brasil uma vez que vai permitir a inserção de capital internacional para a criação de empregos. Ou seja: seremos uma versão remunerada dos índios e escravos que, cada um a seu tempo, ajudou portugueses, ingleses, holandeses, franceses e outros a retirar matéria prima da colônia para a manufatura na Sede da Matrépole.
Parece exagero? Não, não é. Nada mudou no cerne da relação imperialista entre a Colônia e a Metrópole.
As diferenças entre as duas situações, do passado longínquo aos tempos atuais de opinião pública afiada e presente nas redes sociais foram corrigidas com estratégias de Comunicação recorrentemente utilizadas para esta finalidade. Assim como os alemães apoiaram maciçamente os avanços genocidas de Hitler, os americanos aplaudiram os cogumelos atômicos nas cidades japonesas, tudo ficou comprovado ser uma questão de ponto de vista. Com a explicação específica toda verdade amarga e cruel fica doce e necessária
Com uma rápida passada pelas opiniões dos perfis Facebook relacionadas ao tema se torna possível compreender como somos todos nós bovinamente convencidos que o nosso melhor lugar é o abatedouro.
Para grande parte das opiniões favoráveis à abertura das riquezas à exploração internacional – assim como Temer justificou com a criação de empregos e salários para os brasileiros – não adianta ter um Pré-Sal rico, mas com a Petrobras “quebrada” ou, ainda, políticos corruptos à frente da estatal desviando todo o dinheiro. 
Mas, deixe o Facebook para lá. Converse com as pessoas em seu círculo de amizades e relações. Veja como vai haver o mesmo senso de opinião: de que adianta jogar dinheiro na Petrobras se lá é o ralo da corrupção? Para que esperar pela Petrobras se ela está quebrada? É um senso comum do brasileiro médio imaginar que a Petrobras não tem dinheiro para adquirir um Gol Quadrado, então, como poderia investir para retirar os bilhões de dólares na forma de riquezas minerais do Pré-Sal?
A lógica da inutilização dos processos por conta da existência de políticos bandidos promovendo o “ralo da corrupção” é a mesma lógica de que, se você tem um carro e ele apresenta um defeito, o melhor a fazer é vendê-lo ao ferro velho como sucata. Consertá-lo trocando a peça defeituosa está fora de cogitação.
O curioso é que, com o próprio carro, ninguém aprova uma sandice dessas.
Parece estranho, não?
A maciça Comunicação estratégica que temos recebido em todos os níveis de acesso, seja rádio, TV ou internet são promovidos pelos mesmos grupos. Se você não lê o jornal X, você acessa ao portal do Grupo X. Ou ouve uma rádio do grupo X. As emissoras menores, que copiam notícias ou que assinam o direito de pegar informações das agências de notícias, pegam as informações da agência... X.
Em resumo: há uma mesma vertente de informação disseminada por diversas formas, sejam as mais tradicionais (jornais impressos e rádios) ou as mais modernas (sites e portais).
O resultado disto é que nos últimos anos a Petrobras vem sendo bombardeada com notícias de um sucateamento político, fruto de más gestões, desvios e corrupções. Os defeitos do carro foram identificados, mas ao invés de serem sanados com a troca imediata das peças e circuitos inteiros que estão queimados, estamos simplesmente condenando toda o veículo. O carro, no caso, é a Petrobras.
Não se trata do que é, mas sim, do que querem que você ache que seja.
A solução para o Brasil seguir andando, agora, é pegar o carro de outro. Com o outro dirigindo. A Petrobas, coitada, não tem dinheiro para um fim de semana em Caldas Novas.
Mas, na verdade, é isto que querem que o Brasil assuma como verdade. Os políticos estão condenados ao desvio de caráter sumário, a estatal brasileira (ainda uma das maiores do mundo) não tem dinheiro para pagar um almoço de “prato-feito” e, portanto, a solução é acreditar em empresários, empresas e gigantes internacionais.
Um exemplo derradeiro desta relação foram as eleições municipais deste ano. Políticos, independentemente da origem, do currículo e dos serviços prestados, foram rechaçados peremptoriamente. No lugar deles, o eleitor passou a acreditar em... empresários. Os empresários não-políticos se tornaram uma casta moral e de caráter como se um caçador de lucro(que é o que é um empresário por definição)tivesse mais compromisso de gestão pública que qualquer outro ser humano. É a sublimação da ironia e do paradoxo.
Agora, não satisfeitos, já à beira do abismo, damos um passo à frente: estamos sendo convencidos de que são os megaconglomerados estrangeiros que podem promover o bem ao nosso povo e ao nosso desenvolvimento. São as Exxon, Chevron e Phillips 66 que, incólumes à corrupção – a que promovem ou a que podem ser submetidas – vão vir ao Brasil fazer o bem: gerar emprego e renda.
É como esperar que o Urubu da Caatinga torça para que o Boi sobreviva. E que fique bem.
Michel Temer quer que você saiba que ele tem a certeza de que o Urubu torce pelo Boi. Ele nos disse isso esta semana: “Sinto que estamos praticando um ato em benefício do Brasil, na medida em que permitimos outros setores, estamos também ampliando a margem de empregos”. Foi o que disse o presidente.
E sorridentes os bovinos vão felizes cantando na fila do abatedouro.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A união de Ronaldo Caiado e Iris Rezende é a mescla de tudo o que o eleitor não quer em Goiás



Por que?

Porque curiosamente estas são as duas trajetórias mais antagônicas do Estado, mas que se misturam justamente ao representar – a seu modo – o que há de mais atrasado em termos de imagem e pensamento político. Ronaldo Caiado é um político de grupo, de defesa sistemática dos latifúndios com um sectarismo que muitas vezes o coloca em lados opostos aos anseios sociais da coletividade. Além disto, é o sobrenome ativo na política que mais mostra o ideário de “clã” e do tempo das oligarquias familiares que misturavam política com poder financeiro e influência social. 

Iris é o nome dos mutirões, da luta popular, da bandeira da redemocratização. Alia-se por interesse político e desespero para formação de uma chapa com tudo aquilo que passou a vida combatendo nas urnas e fora delas. Aos 80 anos, poderia reavivar sua história e experiência deixando um legado para a nova geração ao se unir com políticos mais jovens dentro ou fora de sua legenda. Seria uma espécie de totem vivo e ativo na formação política e – quem sabe – o principal alicerce no Governo de Goiás a partir de 2015.

Mas, não. Iris preferiu bancar-se aos 80 anos – é preciso frisar – ele mesmo como a imagem do “novo”. E uniu-se a Caiado que detém conceitos políticos ainda mais velhos que as práticas iristas já bastante datadas.

Rezende começou a perder eleições estaduais em 1998 quando foi-lhe imposta a imagem e o conceito de ultrapassado, velho. De lá pra cá, não parou de ser derrotado por Marconi Perillo algoz de suas derrotas e deste conceito que lhe colou fortemente. Perillo usou a mesma fórmula de 1998 em todos os anos que precisou enfrentar Iris e o PMDB: as práticas velhas, desgastadas, cansadas demais para gerar o bem estar da população.

O que o eleitor pediu, sonhou e contou em pesquisas sobre a vontade de querer algo novo, de esperar por mudanças, definitivamente não está representada por uma aliança de Caiado e Iris.

Passaram-se 16 anos até este 2014 e mais do que envelhecer na idade e na aparência – ciclo ao qual estamos todos fadados – Iris Rezende parece ter envelhecido ainda mais e mais em décadas de atraso políticos em práticas e conceitos. O abraço a Ronaldo Caiado é comprovação de que sua ideia de novo está ainda mais antiga do que aquela que Marconi Perillo – genialmente – batizou de “panelinha”.

A panela, agora, está mais gasta do que nunca.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

PMDB: confusão nos bastidores e muito jogo de cena para a plateia

Iris está fora e Junior é o pré-candidato do partido. Não, Júnior está fora e Iris é o candidato. Júnior vem aí novamente. Iris vem aí novamente. Estas são algumas das afirmações já feitas sobre quem será o nome do PMDB para as eleições em Goiás este ano. De todas as possibilidades aventadas simplesmente todas já foram concretizadas e uma desdita pela outra sistematicamente. Este é o resumo do PMDB goiano que vive um intenso movimento de indecisão, confusão e falta de unidade. Até a semana passada, quando deu-se a saída de Júnior Friboi, tudo parecia encaminhar para que Iris Rezende novamente fosse o nome a unir a legenda e tornar-se ele mesmo pela terceira vez candidato ao Governo de Goiás para enfrentar Marconi Perillo, numa luta que parece muito mais uma vingança pessoal que uma corrida eleitoral. No entanto, já cresce o movimento nos bastidores do partido pela volta de Friboi às lides e ao comando de seus aliados que estão longe de retornarem a formação e uma base com Iris Rezende. A tradução das movimentações de ambos os nomes peemedebistas é um grande cabo-de-guerra. Ao se manifestarem afastados da corrida eleitoral neste período nada mais fazem que jogar um charme para os quadros do PMDB: querem ser reconhecidos e chamados de volta à cena, o que lhes conferiria mais importância. Acontece que se de um lado a cada movimento, os grupos aliados de um e de outro saem fortalecidos porque comprova-se que os dois lados são fundamentais para o sucesso eleitoral, por outra via, a cada nova lavada de roupa suja pública, o PMDB deixa um único recado para o eleitor e para os demais partidos aliados: está rachado profundamente e bem longe de sequer chegar perto do entendimento. E já que tem de ir à eleição, vai assim mesmo, partido ao meio e sem um lado querer apoiar o outro. Um desdobramento deste esfacelamento está na decisão de alguns partidos menores que estavam aliançados com o PMDB de Friboi em não mais realizar reuniões sem que estejam à mesa tanto Júnior como Iris. Querem o impossível, é verdade, mas é a única maneira de saberem com quem estão de fato negociando e quem é que de fato manda do partido. Porque a cada instante aparece um para dizer que decide pelo partido. E isto muda de tempo em tempo. Esta manifestação é o recado que os partidos dão ao PMDB e pode ser também uma prévia de como o eleitor vai interpretar estas movimentações aleatórias, indecisas. A semana promete mais uma rodada de negociações e até o momento, nem Iris se assumiu candidato e nem Friboi sinalizou com um possível retorno às lides. Ambos ficam na espera de quem vai ceder para apoiar o outro. Enquanto isso, é possível ver de longe da fumaça da fogueira das vaidades queimando a representatividade e a confiabilidade do partido que se autoconclama ser a principal legenda da oposição do Estado.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A vida é tão desprevenida e exata, que um dia acaba


Para Karl Gustav Jung, cujo um dos maiores fãs anapolinos é o médico endocrinologista Jorge Cecílio Daher, o homem morre frustrado, irremediável e irrefutavelmente falido em suas esperanças com a vida. Tudo porque, segundo Jung, não conseguimos nunca viver a vida que gostaríamos de ter vivido. Faz sentido. Muito, aliás. Muitos são os pensadores, filósofos, poetas e bêbados ilustres por aí que, no ocaso da vida, repetiram que se pudessem não viveriam com tanta prudência, com tanta delicadeza e até mesmo com medo da vida. Borges, o poeta argentino, escreveu sob esta perspectiva em “Instantes”. Vale a transcrição:
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais. Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

A conclusão que o argentino chega ao final de “Instantes” é: “Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo”. O arremedo não é outro senão a da frustração. Deixando de lado os poetas importados, Manoel Bandeira, que viveu a vida inteira achando que morreria na semana seguinte e ultrapassou a incrível (até mesmo para os padrões de hoje) marca dos 80 anos, também vaticinava acerca da “vida que poderia ter sido e não foi”, como em Estrela da Vida Inteira.
Falar é fácil demais, uma beleza. E eu, quase sempre dando muita vazão ao lado subjetivo da vida (quer coisa mais subjetiva que poesia?), às vezes me pego pensando na utilidade da poesia para a existência material e prática. Falar de amor, de existência ou morte é quase sempre um exercício que perde seu sentido à medida que o tempo pode ser utilizado para trabalhar, ganhar e gastar dinheiro, ou mesmo ter prazeres dos mais belos e terrenos. Para que serve tanta poesia? Ou, ainda, como deixar todos os compromissos, o relógio que nos prende e nos acorda cedo, para viver a vida que poderia ter sido, com direito a ter um perfil quase hippie ou ermitão, com tardes descalças, nados no rio, viagens e outros delírios de Jorge Luiz Borges?
O homem é só frustração a partir do momento em que só descobre o que realmente poderia querer quando não há mais tempo para se realizar. E para descobrir isto não é preciso atingir o final da vida. Reflita você, agora, em quantas situações não se arrependeu de não ter dito ou feito algo bem no instante seguinte em que já se tornou impossível fazer ou falar aquilo. A morte é mestra na coroação deste momento. Quando se perde alguém o primeiro pensamento que surge é o que deveria ter-se feito ou falado se tempo houvesse para tanto. “Eu deveria ter dito aquilo”. “Por que eu não fiz isto?”. Todos recorrentes.
O homem é vítima do próprio arrependimento que ele se permite inserir e viver dele e nele.
Uma das grandes esfinges de mistério que o ‘além-vida’ pode proporcionar – e se isto for verdade, o ato de morrer já vale à pena por matar a curiosidade – será saber porque o homem moderno só vive baseado em ação e pouco, pouquíssimo, em reflexão. Este perfil característico é o cerne de todo o arrependimento. Por que tanto trabalho ou dinheiro? O que mais seduz, o conceito de felicidade ou o conceito de poder? Quando estes dois se misturam e quando a necessidade de ter os dois pode ser conflitante?
E em que paradoxo vivemos que não podemos então parar para admirar e ver a vida, esta vida do amor de pais e filhos, dos amores naturais e profundos, porque temos que correr e correr, sem parar? Se tudo é por alguém ou por um amor que é incondicional e perfeito demais, por que não viver mais este amor e deixar com que as coisas sigam um caminho menos duro, hostil e que consome nosso tempo, vida e saúde?
Penso em mim e penso na diversidade de amigos e conhecidos que tenho e do que conheço da vida de cada um. Todos, de uma maneira pouco diferenciada, caminhamos numa mesma direção rumo à passagem pela vida. A existência com maior ou menor êxito de cada um sempre ocorre da mesma forma. Todos querem a mesma coisa. Uns conseguem muito, outros pouco, mas o mundo tornou a necessidade humana quase idêntica. E então, robotiza-se a existência. Para no final de tudo, descobrir-se que pouco ou até mesmo nada valeu a pena.
E aí vem uma espécie de arrependimento “pré-mortem”.
O poeta e pensador urbano Agenor Miranda de Araújo Neto, certa feita, questionou: “Pra que sonhar? A vida é tão desconhecida e mágica que às vezes dorme ao seu lado calada. Para que buscar o paraíso se até o poeta fecha o livro?”. E ao fim de “Ritual”, a conclusão fatalista – e sob certo prisma – um tanto quanto real: “Ao Deus que ensina a prazo ao mais esperto e ao mais otário. O amor na prática é sempre ao contrário. Pra que chorar: a vida é tão desprevenida e exata que um dia acaba”.
Deus ensina a prazo? Por que demoramos tanto para entender que nossa vida, cedo ou tarde, vai desaguar no arrependimento? Michelangelo Buonarroti concluiu sua vida com uma lamentação egocêntrica de quem tinha a certeza de que merecia viver pelo menos mais outra vida: “Vou morrer logo agora que estou no começo do entendimento de tudo que é a vida”.
Fica fácil colocar no transcendente a culpa por nossas inquietações. Mas além da crença do Deus, no divino e perfeito, no transcendente, é imprescindível crer na própria capacidade de fazer diferença e realizar na própria vida uma forma de minimizar este efeito senil do arrependimento de ter querido fazer mais e não ser mais possível. É bem provável que este sentimento de “deveria ter feito mais isto e menos aquilo”, como está em “Instantes” de Jorge Luiz Borges, também só exista como uma seqüela de que a vida está se esvaindo.
Como Deus em certos temas, efetivamente, ensina a prazo e que somente com o tempo de existência (e espera-se com o tempo além-vida) se aprendem certos conceitos sobre a vida, uma coisa é certa: é preciso refletir mais, talvez na mesma velocidade em que se sente vontade de agir. Porque somente com a reflexão no que se quer viver pode-se minimizar a chance de lá à frente perder-se no lago turno e de águas paradas do arrependimento.
A vida inteira que poderia ter sido e não foi.
Que façamos sê-la, que usemos a chance única que é a existência terrena a fim de melhor aproveitarmos estes instantes.
“É preciso viver, não apenas existir”. Não há mais nada a dizer que Plutarco, autor desta derradeira citação, não tenha dito. Vamos nos permitir.

sábado, 19 de junho de 2010

Símbolos da modernidade

Cada semana de 2010 revela uma tendência na área política. É assim do início da pré-campanha, depois de fevereiro, e somente se intensifica até a campanha tomar de fato um rumo e assumir uma característica específica no auge da disputa. E só então, quando se entra nesta reta de chegada, é que se descobre qual ou quais os motes que serão preponderantes para que um candidato vença e os outros percam no pleito majoritário.
Mas, enquanto isto não acontece, diversas linhas de pensamento e de perfis específicos vão surgindo, num movimento curioso, como se fossem feitos testes com os candidatos e, logo, com o eleitor, para saber qual qualidade – ou defeito – pesa mais para quem vai digitar seu voto na urna. São diversas, portanto, as questões levantadas entre os grupos políticos diletantes para elevar o conceito de seu pré-candidato e, claro, comprometer a imagem e a competência de outro.
Há algumas semanas persistindo na lide dos debates entre os dois principais candidatos em voga nas pesquisas até o momento, um item promete ser mais do que uma provocação passageira de pré-campanha. O debate sobre a “modernidade” chega com força nas eleições de Goiás deste ano, com a expectativa alimentada de parte a parte pela participação dos grupos de Iris Rezende e Marconi Perillo. Ambos, sob sua perspectiva institucional enquanto partidos defendem que seus ideais, suas propostas e, obviamente o seu candidato, é o que tem o perfil mais adequado para atender à modernidade.
Mas a dúvida que surge neste horizonte de tentativas de emplacar um nome na empatia do eleitor é: o que é modernidade? Ou, ainda: para que serve como vantagem ter a pecha de algo “moderno”? O novo sempre surge, quer alguém queira, quer não. Mas nem todo novo, nem toda “nova novidade” é benéfica. O Brasil, o mundo, e cada um de nós em nossos universos particulares e cotidianos sabemos que nem tudo que nos surge como novidade e símbolo supremo de modernidade é proporcionalmente bem-vindo e positivo. Os exemplos são de se perder de vista.
Mantendo o foco em Goiás, é interessante perceber como há tanta insistência na criação do perfil do “moderno” que até mesmo alguns bastiões já foram elencados pelos pensadores das campanhas. Entre eles está a inclusão da informática no discurso, agora traduzida com um “moderno” termo de “Tecnologia da Informação” (ou simplesmente TI) e, ainda, uma ferramenta digital descompromissada, meio moleca, que vem ganhando importância superestimada: o tal do Twitter.
O Twitter nada mais é que uma rede social, na qual pessoas podem ecoar uma opinião simples ou relatar rapidamente um ato de suas vidas para centenas, milhares e até milhões de pessoas. Quanto mais seguidores, ou seja, gente interessada em saber o que você faz e pensa sobre qualquer assunto, mais eco digital haverá em uma simples frase. E uma informação besta como o presidente Barack Obama dizer, hipoteticamente, “Hoje acordei indisposto, com piriri e vou ficar na cama” pode chegar a milhões de pessoas pelo mundo. Tudo via Twitter.
E o tal do Twitter, um bobagem que ganha ares de instrumento de batalha, tornou-se item diferencial entre candidatos. Em entrevista ainda inédita para um jornal goiano, o dirigente tucano Antônio Faleiros usou a rede social para reivindicar que a modernidade numa eventual gestão de Goiás cabe a Marconi Perillo, seu candidato. Questionado do porquê ser Perillo um representante da modernidade e quais instrumentos usaria para ser um gestor modernos, Faleiros explicou que, por exemplo, Marconi Perillo usa as ferramentas tecnológicas muito bem, como o... Twitter.
Ora, seguindo este pensamento, de forma retilínea (e até boçal da minha parte, confesso), mas que foi a forma igualmente retilínea apontada pelo dirigente tucano, um internauta frenético do interior do Piauí, como o auto proclamado “Lucas Celebridade”, da tímidíssima cidade de Luzilândia, pode também se revelar como um grande gestor da área tecnológica de um governo. Isto para dizer o mínimo. Marconi Perillo tem cerca de 12,5 mil seguidores. É senador de República e foi governador por oito anos. “Lucas Fama Pop”, que é como o problogger se apresenta, tem quase isso, hoje conta com mais de 10 mil seguidores.
Em seu currículo laboral e social, Lucas se apresenta como animador de eventos e radialista. Foi a São Paulo pela primeira e única vez neste ano. De ônibus. Proporcionalmente Lucas Celebridade é mais moderno e mais preparado para assumir um debate sobre modernidade e tecnologia que Marconi Perillo, caso seja este o item escolhido para ser basilar para o embate.
Esta tese não serve pra desmerecer o trabalho de Perillo como político, ou mesmo a sua aliança íntima com o uso positivo da ferramenta Twitter – Marconi, ao lado do também senador Demóstenes e do deputado Rubens Otoni, possivelmente são os políticos goianos que usam com mais objetividade e sabedoria a tal rede social – mas o que fica claro é que não é este discurso que vai transformá-lo num político moderno e cheio de idéias boas e novas. Dizer que modernidade é o gestor saber usar computador e programas de internet é como dizer que eu, tendo um carro veloz e sem nunca ter me envolvido num acidente de trânsito, poderia assumir o lugar de Rubens Barrichelo de Formula 1. Quando, na verdade, eu nem caberia dentro do cockpit.
A estratégia de colocar Marconi Perillo na proa da modernidade é atingir a imagem de Iris Rezende em dois pontos. O primeiro é quanto à compleição física do peemedebista. Ele é velho e isto é um fato tão comum quanto inexorável. Não necessariamente significa afirmar que ele seja antiquado. Mas traz como qualquer ser humano da sua idade, as marcas do tempo.
Além disto, há outra preocupação com Iris Rezende. A sua gestão recente à frente de Goiânia colocou o político que detém a carreira mais profícua e longeva de Goiás numa posição de extrema modernidade: ele ganhou a preferência de jovens na capital, atuou junto a ações efetivamente tecnológicas em diversos setores da economia e da gestão pública. Ao mudar a forma de gerir a capital, Iris usou justamente com um traço que preocupa e muito os tucanos: a modernidade.
As proposições ainda estão começando a ser descortinadas. E possivelmente o debate sobre o “moderno” e o “antiquado” está só começando. Ainda há muito a se descobrir, mas é certo que a conversa precisa ir além do discurso de que o candidato “saber usar o mouse e mandar e-mail” faz dele um grande preceptor do “novo”.
E, por fim, é fundamental ter noção de que nem toda cara limpa e esticada carrega o pensamento proporcionalmente limpo, esticado e... avançado. A idade serve para contar o tempo, e não a juventude das idéias.

Ode (torta) à tristeza

Passei pela cozinha e minha empregada, alegre e distraída, ouvia e cantarolava uma canção do Gian e Giovani. Um clássico do sertanejo infeliz, como todo bom repertório sertanejo deve ser: sofrido. “Recebi o convite do seu casamento, com letras douradas num papel bonito. Chorei de emoção quando acabei de ler. Num cantinho rabiscado no verso, ela disse ‘meu amor eu confesso estou casando, mas o grande amor da minha vida é você’”.
Sofrimento. É sabido por toda a humanidade de gente feliz e satisfeita não faz filme, não escreve livro e não grava música. É um fato que a dor e o incômodo movem as vontades, o mundo. E há nos sentimentos profundos, como o amor, um quê desta inquietude. Há algo de desesperador em todo amor que se vive. E são deles os componentes combustíveis para a criação das artes, das manifestações. Freud assumiu que o desejo move o mundo. E é isto: os desejos são os amores. De qualquer natureza, sexuais ou não.
A música está repleta de exemplos e mesmo eu não sendo um entusiasta das duplas brejeiras, e até mesmo flertando com o caricato ridículo, acredito que é preciso fazer uma defesa dos cantores do desamor. Afinal, em última análise, eles não estão sozinhos. O charme e a elegância que ganharam o mundo através do Tango já não escondem que traz dentro de si o mais bruto sentimento de abandono da pessoa amada.
A diferença entre o Tango e o Sertanejo? Muitas, infinitas, em sofisticação, elegância, trato musical e centenas de outras coisas. Mas lá no fundo a força motriz é uma só: as desilusões. De modo que a canção mais famosa mundialmente do gênero de Carlos Gardel, aquela que todos se lembram de uma cena de Perfume de Mulher, é de autoria do próprio e se chama “Por uma cabeza”, na qual o personagem compara a infelicidade trazida por uma mulher, assim como aquela tida com um cavalo de corridas. E, por fim, descobre: “por causa de uma cabeça acontecem tantas loucuras”.
Assim o Tango, o Fado, o Samba e a Bossa Nova. Estes dois ritmos, então, dispensam comentários. “Tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim”, atesta Gil e Caetano, criando uma frase lapidar para esta certeza de que a dor da dor é o que nos move.
Isto para falar de música. Mas em todas as artes, o homem tem se manifestado por causa do ser amado. Na Divina Comédia, Dante Alighieri desce ao inferno, encontra com o barqueiro do mais baixo ciclo infernal por causa de uma mulher. Não quer dinheiro, fama ou outra sorte de coisa. Quer ser amado por quem ama.
Milan Kundera, mais sutil e profundo, relata a história de um casal histriônico, Tomás e Teresa, na qual os sentimentos de perda, de abandono e da conquista perdida substituem a ternura do amor. Está em “A Insustentável Leveza do Ser”, um clássico cujas pitadas da filosofia moderna dão um ar de obra-prima universal. A evolução de qualquer sentimento de amor sexual e paixão podem ser trocados a qualquer momento por esta sensação de perda vivida pelo casal. E nisto tudo, entra um longo relato de Kundera sobre “compaixão”. Amores desfeitos geram imediata carga de compaixão, seja pelo outro ou mesmo por si próprio.



Por isto, muito preocupa esta ditadura da felicidade que o mundo se impôs. É difícil saber onde começam as coisas, os primeiros movimentos. Mesmo com um mundo tão pequeno como nós já conseguimos torná-lo, é ainda impossível saber como nascem as tendências. Mas há quem tenha criado esta sensação de felicidade plástica. Do eterno e constante sorriso. Até mesmo as cirurgias estéticas deixam as mulheres com sorrisos idênticos, marcados, os mesmos. Há uma espécie de opressão, uma ditadura da felicidade.
Existe uma obrigação em ser feliz. Em estar feliz. Em viver a vida como uma celebração à felicidade, como se não fosse possível sentir-se oprimido e confuso diante de tão gigante experiência. Quem passa pela vida sem se inquietar é porque – verdadeiramente – não foi tocado pelo titânico poder opressor que é esta experiência. Quem não se pergunta, não se põe em dúvida ou em engano, acerca do que é a vida, não conseguiu sequer entender que existe mais dúvidas que respostas em todo este processo.
E neste ponto, as religiões têm muito disto. As religiões ocidentais, como um todo, prevêem respostas para tudo. Não abrem espaço para a dúvida, para o desconhecido, para a mágica do místico, do incógnito. São estas perguntas que nos geram aflição. E da aflição, do medo, da angústia desta sensação, vamos à descoberta. Mas as religiões não admitem isto. Querem responder a tudo, mesmo que desafiem a lógica, o sentido e a inteligência.
Religiões são um prato cheio de idiossincrasias neste aspecto. E ao querer responder tudo, forçando respostas e forjando teorias, exigem que se acredite em nome da felicidade. É crer e ser feliz, num estalar de dedos. Em nome do conforto, as pessoas precisam crer e isto fará delas pessoas felizes. Por que não admitem que viver é também sofrer silenciosamente?
Creio, bem pessoalmente, na importância de se ter crença em algo. Ou em diversas coisas, mas que não nos apoiemos nisto como uma resposta para tudo e para todas as nossas inquietações da vida, da matéria, do espírito. Religião deve ser um trampolim e não uma muleta. Que lhe conforte, mas que lhe projete para o além de onde se está, mesmo não curando as feridas das suas dúvidas, da sua infelicidade.
Até as drogas, hoje, servem para deixar o sujeito feliz. O ecstasy, o grande barato que dominou o mundo a partir dos anos 90, vem deste conceito: a pílula do amor. Está triste? Desanimado? Levou um pé na bunda? Ora... a pílula do amor é a solução. Assim, as pessoas não se permitem mais ficar tristes. Ao inventarem tanta alegria e condenarem tão veementemente a solidão e o encantamento do muxoxo pretendem desempregar psicólogos, desocupar ombros de amigos e matar a poesia. A poesia só existe nos lapsos infelizes das pessoas alegres ou na alegria fulgás das mentes deprimidas. Se unificarem os pensamentos e comportamentos com alegria espiritual ou química, o mundo será uma massa humana idêntica.
Que vivamos, portanto, com o direito de sorrir, amar, e vivermos a história de amor que quisermos. Mas que tenhamos igualmente o espaço para o banzo, a melancolia. Que possamos viver sem censura as perdas dos amores desfeitos. Que choremos baixinho, sem que ninguém veja, mas sem culpa, pelos abandonos, os laços desfeitos, os planos inconclusos, os sonhos não materializados.
Que nossas inquietudes e dúvidas em relação à vida faça-nos filósofos, pensadores, poetas, políticos, escritores, artistas, músicos, compositores da existência humana, uma epopéia que os mais medíocres sequer conseguem enxergar, como se analisar isto fosse conversa de quem anda desligado do mundo. O que não vêem é que o mundo só existe para que você esteja vivo e nele viva.
A vida, a arte e o mundo de sentimentos que abrigamos dentro de nós pedem por isto. Que não sejamos imediatistas ou apressados, porque a felicidade há de surgir uma vez que as coisas boas sempre pedem passagem em nossa vida. Enquanto isto, de Gian e Giovani ou de Carlos Gardel, que possamos viver a intensidade em verdade daquilo tudo o que sentimos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ainda apostando em vôo solo, DEM segue articulando Sahium como vice

Presidente municipal do Democratas, Carlos Cesar Toledo revela a intenção da legenda em lançar o nome do ex-prefeito como candidato a vice de Marconi Perillo – como antecipou com exclusividade O Anápolis –, e ainda propõe nomes alternativos de anapolinos



O presidente regional do DEM e deputado federal Ronaldo Caiado ainda é pré-candidato a governador. Pelo menos é o que reafirmam dirigentes do partido em pronunciamentos oficiais. Muito embora saiba-se por todo o Estado que uma candidatura isolada em meio a um processo de polarização, que até mesmo uma pré-candidatura palaciana tem encontrado dificuldades para se firmar, seja evidentemente inviável.
Ainda assim, faz parte da estratégia democrata manter as aparências de que não está sem caminhos fora a aglutinação e, por isto, o nome de Ronaldo Caiado é posto pelo DEM como pré-candidato. A fragilidade desta tese é tamanha que nem mesmo os institutos de pesquisas e seus contratantes sequer se preocupam em colocar o nome do deputado federal como postulante a uma vaga.
Mas fora das entrevistas a jornais e emissoras de rádio, os membros da Executiva do DEM se articulam em outros caminhos, bem menos tortuosos que uma candidatura própria. São alternativas bem mais palpáveis para a realidade que a legenda vive em Goiás. Em Anápolis, o partido agiliza para consolidar a tese de que independente de quem seja a coligação escolhida – Marconi, Iris ou Vanderlan – é preciso que o DEM indique um candidato a vice. E para a ala anapolina do partido, a presença de um anapolino é fundamental para dar visibilidade e capilaridade à chapa dentro do município.
Mais do que isto, o DEM de Anápolis já tem até um nome para referendar, para dar cara e voz a esta tese. Trata-se do ex-prefeito Pedro Sahium. A informação foi antecipada na edição 7702 de O Anápolis, na qual a reportagem indicou a intenção do DEM em enviar a proposta com o nome de Sahium para a vice de Marconi Perillo.
Para o presidente da legenda em Anápolis, Carlos Cesar Toledo (foto), a cidade tem condições de pleitear um espaço na vice de alguma das chapas majoritárias que estão lançadas em pré-candidatura. “A representação da cidade ainda está indefinida, ao contrário de Goiânia, que tem a força de Iris Rezende, e o Entorno de Brasília, onde Marconi tem bastante respaldo”, avalia o dirigente. Para ele, quem indicar uma vice de Anápolis, pode conseguir fazer a diferença numa eleição. “A cidade tem um peso decisivo nas urnas e já provou isto”, aponta.
 
Nomes
Recém ingressado no DEM, Pedro Sahium começou a vida política do outro lado que se encontra hoje. E fez um caminho ideológico no sentido da esquerda para a direita. Como professor e militante, fez sua estréia política como vereador no PT, pelo qual cumpriu mandato de vereador.
Deixou a legenda e ingressou nas idéias socialistas do PSB, partido pelo qual elegeu-se vice-prefeito na chapa encabeçada por Ernani de Paula, então no PPS, e depois foi à reeleição ainda pelo PSB. Depois de diversos problemas políticos e com o seu mandato, deixou o PSB e ficou sem partido até assumir as trincheiras do DEM.
E, ao que parece, chegou para assumir posição de destaque com o antigo partido da Frente Liberal, já que, ainda segundo Carlos Cesar Toledo, Pedro Sahium “é bom de voto, já mostrou nas urnas”. Inicialmente, Sahium assume a condição de pré-candidato a deputado estadual, mas ele não nega a possibilidade de ser vice, representando o DEM. “Sou um homem de partido” teria dito aos companheiros.
Ainda assim, caso não seja referendado como a melhor opção para a vice anapolina do DEM ou caso opte por seguir a vida parlamentar, já existem alternativas a Sahium dentro dos quadros do partido. O médico e ex-vereador Claudio Paiva é outra opção a Pedro Sahium. Paiva já ocupou cargos no governo municipal quando Sahium era prefeito, sendo seu chefe de gabinete. O próprio ex-prefeito lançou opções ao seu nome de quadros democratas, como o seu ex-secretário de Desenvolvimento Econômico, Joaquim Amarildo, e do médico e quadro lendário do DEM, Abrahão Issa. “Mas Sahium vantagem por ter densidade eleitoral”, reitera Toledo.

Organização
Mesmo em meio ao terreno fértil, ainda que árido, das articulações, Carlos César Toledo garante que “o DEM de Anápolis não ficará ausente destas decisões”. Na reunião ocorrida na última sexta-feira, com a presença de Ronaldo Caiado e Demóstenes Torres, a pauta foi oficializar o desejo democrático do braço anapolino do partido em lançar a tese do vice local. As principais estrelas do partido, ao tomar ciência desta movimentação, agora deverão articular sobre a possibilidade, e viabilidade, da proposta.
Sobre os problemas com a justiça que passa [Pedro Sahium, Carlos Toledo prefere destacar a atuação do DEM na aprovação do projeto de Lei “Ficha Limpa”. Conforme também antecipado por O Anápolis, na edição 7700, foi uma das estratégias do partido em âmbito nacional abraçar a causa popular do Ficha Limpa, a fim de tentar limpar a própria ficha do partido, após o caso do mensalão do DF, que culminou na cassação e prisão do único governador do DEM, José Roberto Arruda.
“O caso de Sahium foi estudado antes de ser aceito no partido. Ele foi condenado no artigo 11 da lei 8249 – foi um ato de formalidade que não foi atendida, enquanto gestor municipal”, explica Carlos Toledo sobre a situação do ex-prefeito. E, por fim, encerra a análise com uma ponderação curiosa e recorrente também nos pronunciamentos de Pedro Sahium. “Ele não está sofrendo processo por enriquecimento ilícito”.
 

Vivendo “momento DEM”, PSB empaca e abre negociação com todas as coligações

Partido comandado por Barbosa Neto pisa em falso na caminha das definições de alianças e agora já deixa reticente a aliança com a Nova Frente de Vanderlan, idealizada pelo Governo do Estado: há ainda correntes analisando diálogos tentadores com Marconi e Iris


O Democratas é, hoje, um partido coringa. Como se sabe, mantém negociações, conversas informais, diálogos e assédios formais, e ouve propostas de todas as três grandes chapas que almejam o governo de Goiás. Enquanto isto, a legenda ouve, pouco sinaliza e mantém integrantes infiltrados dentro do quartel-general tucano e peemedebista e da Nova Frente. Se ao não se posicionar ideológica e politicamente perante o eleitorado, o DEM comete um erro por demonstrar ao eleitor que está no jogo em busca da melhor proposta e não tem um projeto pronto e definido para defender, parece que o partido começa a fazer escola.
Isto porque o PSB é o próximo partido que dá sinais de querer também tirar proveito desta “liberdade” de escolha, em nome da pluralidade. Após anos ser aliado e bem acolhido no Governo de Goiás, estrutura na qual ocupava a Agência Goiana de Turismo, tendo como presidente o socialista Barbosa Neto, o partido iniciou o processo de pré-campanha influindo diretamente na formação da Nova Frente, que reúne, entre outras legendas, partidos e nomes ativos nesta escolha como o PP de Alcides Rodrigues e Jorcelino Braga, e o PR de Sandro Mabel e do próprio pré-candidato Vanderlan Cardoso. Neste grupo, integravam também membros do PSB, incluindo o seu presidente, ex-deputado federal Barbosa Neto, que foi responsável também pelas escolhas feitas pelo colegiado.
Agora, com tudo já avançado, pré-candidato nas ruas correndo o Estado atrás de apoio e alianças, o PSB começa a fraquejar na fé que deposita neste acordo. Embora haja uma parcela significativa do PSB que se mantenha firme no propósito governista de apoiar Vanderlan Cardoso, o próprio presidente da legenda foi quem deu início a um processo de afastamento. E já começa a dialogar com Iris Rezende. Saído das bases mais íntimas do PMDB. Barbosa Neto ainda mantém ligações de afeto e porque não dizer também políticas com sua legenda-mãe.


Estratégia?
Se a movimentação de Barbosa Neto (foto)é real e tem possibilidades de haver uma migração, ainda que parcial, mas pelo menos da PSB para a candidatura da aliança PMDB-PT ainda é uma incógnita até mesmo para os principais envolvidos. É possível que faça parte de uma outra estratégia: se movimentar horizontalmente, entre as coligações para, com isto, chamar a atenção dos próprios aliados pepistas e, quem sabe, conquistar mais holofotes e espaços dentro da chapa.
Ao se mostrar volúvel e insatisfeito, disposto a ouvir novas palavras e cantos peemedebistas, Barbosa Neto chama a atenção do grupo que hoje integra e seria bem natural que conquistasse mais voz e espaço dentro do projeto. Mas se esta bem manjada artimanha costuma dar certo, certo também são os efeitos colaterais da perigosa medicação: o enfraquecimento da unidade do partido e o surgimento de outras insurreições ideológicas.

e novas ‘tendências’

Bastou que a notícia de que Barbosa Neto estaria “conversando demais” com peemedebistas e sendo cortejado pelo pré-candidato Iris Rezende, para que outras lideranças do PSB saltassem metros acima do chão a fim de ressaltar a importância do partido manter a unidade. Em entrevistas ou mesmo via microblog Twitter, nomes do PSB se manifestaram.
O presidente da Câmara Municipal de Anápolis, Sírio Miguel Rosa (PSB) - na foto ao lado - foi um deles. Fez questão de ressaltar que não há indecisão no partido. “O partido marcha na frente que tem a liderança do governador Alcides Rodrigues. O que existe são manifestações individuais como no caso do presidente do partido”, destaca Sírio Miguel, já tentando amenizar o foco de incêndio. No entanto, o próprio vereador anapolino remete ao efeito que isto causa. “Este tipo de manifestação não é compartilhada com a Executiva regional do partido, por isto que surge este descontentamento”, revela.
Em nome da preservação da unidade, notadamente em risco depois da “pisada em falso” do presidente em deixar a aliança da Nova Frente, Sírio Miguel Rosa hipoteca sua confiança em Barbosa Neto, jogando para ele a responsabilidade. “Confio na ponderação e na liderança do ex-deputado federal Barbosa Neto em manter os compromissos e unificar cada vez mais o partido”, avisa.
Uma das reservas técnicas mais importantes dos quadros do PSB, Jeovalter Correa teme que haja uma decisão “unilateral de Barbosa Neto”, saindo da Nova Frente. Correa e Sírio Miguel se unem no discurso de que a unidade do partido passa diretamente pelo apoio ao projeto do governador.
Já o presidente do partido, Barbosa Neto, rebate as críticas que vem sofrendo de seus colegas de partido. Mesmo sendo fogo amigo, o ex-deputado federal que pretende tentar o seu retorno ao congresso nacional neste ano resolveu entrar no jogo e também disparar. Em entrevista a uma rádio goianiense, Neto não perdeu a chance de dizer que Jeovalter está distante da realidade do partido. “Fizemos oito reuniões e ele não compareceu a nenhuma, isto contribuiu para a desmotivação do partido. Ele é o secretário geral”, cutucou o presidente socialista em Goiás.

Colateral
Ainda dentro dos efeitos colaterais do momento de questionamento da fé de Barbosa Neto ao projeto palaciano, é possível perceber que começam a pulular outras correntes que antes estavam submersas e escondidas no PSB. A mais recente delas veio do vereador goianiense Pedro Azulão Júnior, na coluna Giro de O Popular, na quarta-feira (26). Ele diz que “seu PSB está mesmo dividido”. No entanto surpreende as duas paixões em jogo. “A divisão é entre apoiar Vanderlan Cardoso (PR) ou Marconi Perillo (PSDB) para o governo. Nunca se falou nas reuniões do partido sobre aliança com o PMDB”, revela.
Diante de tal comentário que abre espaço para mais debate, Jeovalter Correa (foto) não se conteve. Em sua página no Twitter foi irônico o suficiente para demonstrar que a derrapada de Barbosa Neto pode custar caro ao partido. “Na coluna Giro do POP a constatação do que tenho dito aqui de que o PSB GO está semrumo: o vereador Pedro Azuläo diz que seu PSB está dividido!”.
Em tempo: o governador Alcides Rodrigues comentou em entrevista concedida em Senador Canedo que até a próxima semana iria conversa com Barbosa Neto e dedicar-se à questão do PSB. Possivelmente, entre mortos e feridos, todos haverão de se salvar da manobra arriscada e manjada do líder socialista de Goiás.

Troca de alfinetadas

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Permita-se

‘A felicidade é uma arma perigosa’, escreveu John Lennon numa música dos Beatles que, anos depois, Belchior fez questão de traduzir a frase e usá-la literalmente como ‘a felicidade é uma arma quente’. A felicidade como sentimento totalitário é composto de diversos preceitos. “Ninguém é feliz, somente se está feliz”, muito já se sabe disto com a própria experiência de vida. Mas, uma hora, e esta hora haverá de chegar, nós nos saberemos felizes ou não. Mais do que estarmos ou sentimos, em algum momento já mais próximo do ocaso da nossa existência, vamos saber o que construímos e avaliar se fomos ou não felizes. Aí, sim, torna-se totalitária a sensação de felicidade.
Um dos componentes da felicidade é viver o amor. Ou os amores. Porque os amores são tantos e infinitos na rede de sentimentos que despertam em cada um. O amor pelos filhos, na magnífica relação instintiva que o animal tem pelos seus descendentes, o amor pelos pais na mesma medida. Mas o grande amor em questão, o perigoso amor, é o que se escolhe. O amor que se opta por viver.
E este amor, ou estes amores que se sente, é tão perigoso quanto a felicidade. Amor mata e faz morrer. Quase tudo é amor. E há os tipos de amor que constroem e os tipos de amor que destroem. Neste processo de paixão e amor por outra pessoa, uma desconhecida da qual em poucos instantes decidimos viver com e por ela, os amores são diversos e para diversos fins. Mas uma coisa neste texto haverá de ficar claro: amores não são feitos somente para fazer bem.
Quem prega que o amor é um sentimento sagrado, ou que pregue qualquer preceito transcendental, religioso, que desperte o amor, que me desculpe, mas nunca sentiu-se suficientemente repleto, transbordante da mais pura manifestação do amor. Porque o amor nos agoniza. Nem todo amor faz bem, porque o amor não nasce com a missão de construir. Ele nasce com a missão de acontecer. O amor é. Pronto. Ele é. Ele não tem de servir para isto ou aquilo. Não tem que servir de palco para construir um matrimônio, filhos lindos, uma casa na praia e dois velhinhos abraçados no domingo a tarde no parque. O amor pode virar isto, mas não é somente para isto que ele nos serve.
Porque o amor é agressivo por natureza. É um redemoinho de sensações. O sentimento do amor, bem com outras sensações igualmente pontiagudas e lancinantes, invade o cérebro humano em uma série de descargas eletroquímicas, numa explicação mais cética. Mas também invade a alma e nos recria, inventa belezas que não existem, cheiros agradáveis, coincidências inimagináveis. O amor constrói em nós o imaginário mais delirante como sendo a realidade mais banal. É o amor. Quem haverá de negar a mágica do amor para fica na frieza das explicações científicas? Ora, todo mundo sabe que o céu de Ícaro tem mais graça que o de Galileu.
Mas mesmo assim, com a explicação que você quiser ter, o amor não é feito para fazer bem. Porque o amor não é feito para nada. Repito: o amor é.
E tentam explicar, esclarecer. E quanto mais o fazem, mais se confundem. O amor é a sensação cuja existência se justifica em si própria. Quem nunca viveu o amor destrutivo? Aquele cuja vontade é matar, morrer, gritar, arrancar do peito o sentimento que faz com que você sinta ódio, desejo, paixão, raiva, cólera e supremo amor pelo ser amado e desejado? Amores são brutos.
Tentam mostrar a doçura do amor. E tentam até mais: mostrar que amor somente vale a pena quando são construtivos. Amor só é amor quando conclui-se no altar.
Mentira.
Patética mentira.
Até porque nem sempre pessoas se casam com seus grandes amores.
E até porque, em última análise, quantos amores não são precisos começar e terminar para que haja um que construa algo para além do tempo que o amor está em vigência? É preciso errar muitas vezes para acertar, é fato. Mas não é assim como amor porque ele não precisa da sua ou da minha aprovação sobre o que é certo ou errado para existir. O amor é. Não venha você com idéias requintadas e prontas para enquadrar o amor. Porque ele vai escorrer das suas mãos solenemente.
É comum que confundamos amor com felicidade. O amor pode trazer felicidade e a própria felicidade não existirá sem a presença do amor. Mas amar não é estar feliz. Amar não é distribuir sorrisos e estar em paz. Acham que amor é paz. Não, não... não é. E não me venha com o papo de paixão. Uma coisa é paixão e outra é amor. Desafio quem amou alguém sem ter sentido o que chamam de paixão. Paixão é o nome que dão aos amores desfeitos. É uma desculpa. Ah, não era amor... era uma paixão. Não seja covarde com o amor. Admita que ele veio, passou, e foi. E foi ótimo.
É fundamental encarar a agressividade do amor para que, enfim, possamos vivê-lo em sua melhor forma. Porque o amor é quem nos escolhe e não o contrário. Quando acontece, a hora que você pensa em desistir, ele já lhe ganhou pelas pernas, braços, pela dura-máter. É preciso compreender que nem todo amor que lhe faz mal, que destrói é um péssimo sentimento que não pode ser chamado de amor. É amor, sim.
E somente com os amores brutos e perdidos, inconclusos e escondidos nas trincheiras do tempo é que podemos vislumbrar a sorte de nos encontrarmos com um amor perfeito e construtivo. Destes dos velhinhos no parque. Possivelmente todo mundo quer este amor. E quer passar por cima dos perigosos, nocivos, dos sentimentos rasteiros e instintivos. O que não se entende é que somente através dos amores que não dão certo é que aprendemos a viver mais e melhor o amor para quando novamente ele aparecer, sabermos aproveitá-lo e usá-lo da melhor forma.
O amor ensina.
E só se vive o que se ama.
Não é porque você sofre que passa a ser ruim aquela experiência amorosa. Não é porque destrói que deixa de ser o nobre amor. É preciso coragem para amar e mais coragem ainda para não desprezar o amor. Porque fugir é fácil demais. Correr é fácil demais. Não encarar a vida em todas as suas grandezas – e muitas as grandezas que a vida nos oferece – é mais fácil que vivenciá-las. Mas somente com coragem para viver o que é “certo” ou “errado” é que se torna possível, uma hora, ter a sorte de construir algo.
Para isto, uma palavra de ordem basta: permita-se.
Permita-se viver amores seguros, de mãos dadas no cinema e a companhia certa na hora da missa ou do culto. Permita a alegria dos passeios nas tardes ensolaradas. Mas também permita-se viver a intensidade do desejo, das incertezas, dos amores nocivos e incertos. Dos amores noturnos, de quando todos dormem e somente os lençóis testemunham todo o medo e desejo guardado somente para serem esconjurados naquele momento. Permita o risco. Permita o amor proibido. Permita o desejo.
Permita a vida que, de tão certa e exata, um dia acaba.
Permita-se viver a experiência que alguém, Deus ou a Mãe Natureza, ou algo que você creia com força, lhe permitiu viver. A humanidade ao longo dos séculos tem tentado se impor freios e amarras que não são da vida ou da existência, mas são das políticas conspiratórias para dominar o homem. O homem, indomável, cai nesta armadilha, entre o que pode e o que não pode. Tudo é possível e tudo é permitido desde que lhe agrade e lhe seja bom. Se você gosta, seja. Se você quer, toque.
O amor não pede permissão para acontecer em determinados lares. O amor, sabe-se, não escolhe idade, religião, atenção, o amor não escolhe nem mesmo sexo. E ainda tentam fazer com que ele seja um sentimento exclusivo de determinada frente específica. Há quem tente, de batina, de gravata ou de avental, ter exclusividade por sobre sensações e sentimentos inerentes do animal humano. Não têm.
Portanto: permita-se a tudo que lhe fizer bem de acordo com o seu julgamento. Porque os amores são os amores. E só. Sorte de quem os encontrar para toda a vida e não só para o deleite seguinte. Os amores são brutos e brutos são os homens uns com os outros. Amemos e vivamos com coragem até encontrarmos o equilíbrio das sensações e sentimentos. E então, lá naquele momento final, saberemos dizer o quanto a felicidade foi um momento em nossa vida ou uma constante ao longo da trajetória.
A vida é pra quem tem coragem.
Permita-se.