sexta-feira, 21 de maio de 2010

Permita-se

‘A felicidade é uma arma perigosa’, escreveu John Lennon numa música dos Beatles que, anos depois, Belchior fez questão de traduzir a frase e usá-la literalmente como ‘a felicidade é uma arma quente’. A felicidade como sentimento totalitário é composto de diversos preceitos. “Ninguém é feliz, somente se está feliz”, muito já se sabe disto com a própria experiência de vida. Mas, uma hora, e esta hora haverá de chegar, nós nos saberemos felizes ou não. Mais do que estarmos ou sentimos, em algum momento já mais próximo do ocaso da nossa existência, vamos saber o que construímos e avaliar se fomos ou não felizes. Aí, sim, torna-se totalitária a sensação de felicidade.
Um dos componentes da felicidade é viver o amor. Ou os amores. Porque os amores são tantos e infinitos na rede de sentimentos que despertam em cada um. O amor pelos filhos, na magnífica relação instintiva que o animal tem pelos seus descendentes, o amor pelos pais na mesma medida. Mas o grande amor em questão, o perigoso amor, é o que se escolhe. O amor que se opta por viver.
E este amor, ou estes amores que se sente, é tão perigoso quanto a felicidade. Amor mata e faz morrer. Quase tudo é amor. E há os tipos de amor que constroem e os tipos de amor que destroem. Neste processo de paixão e amor por outra pessoa, uma desconhecida da qual em poucos instantes decidimos viver com e por ela, os amores são diversos e para diversos fins. Mas uma coisa neste texto haverá de ficar claro: amores não são feitos somente para fazer bem.
Quem prega que o amor é um sentimento sagrado, ou que pregue qualquer preceito transcendental, religioso, que desperte o amor, que me desculpe, mas nunca sentiu-se suficientemente repleto, transbordante da mais pura manifestação do amor. Porque o amor nos agoniza. Nem todo amor faz bem, porque o amor não nasce com a missão de construir. Ele nasce com a missão de acontecer. O amor é. Pronto. Ele é. Ele não tem de servir para isto ou aquilo. Não tem que servir de palco para construir um matrimônio, filhos lindos, uma casa na praia e dois velhinhos abraçados no domingo a tarde no parque. O amor pode virar isto, mas não é somente para isto que ele nos serve.
Porque o amor é agressivo por natureza. É um redemoinho de sensações. O sentimento do amor, bem com outras sensações igualmente pontiagudas e lancinantes, invade o cérebro humano em uma série de descargas eletroquímicas, numa explicação mais cética. Mas também invade a alma e nos recria, inventa belezas que não existem, cheiros agradáveis, coincidências inimagináveis. O amor constrói em nós o imaginário mais delirante como sendo a realidade mais banal. É o amor. Quem haverá de negar a mágica do amor para fica na frieza das explicações científicas? Ora, todo mundo sabe que o céu de Ícaro tem mais graça que o de Galileu.
Mas mesmo assim, com a explicação que você quiser ter, o amor não é feito para fazer bem. Porque o amor não é feito para nada. Repito: o amor é.
E tentam explicar, esclarecer. E quanto mais o fazem, mais se confundem. O amor é a sensação cuja existência se justifica em si própria. Quem nunca viveu o amor destrutivo? Aquele cuja vontade é matar, morrer, gritar, arrancar do peito o sentimento que faz com que você sinta ódio, desejo, paixão, raiva, cólera e supremo amor pelo ser amado e desejado? Amores são brutos.
Tentam mostrar a doçura do amor. E tentam até mais: mostrar que amor somente vale a pena quando são construtivos. Amor só é amor quando conclui-se no altar.
Mentira.
Patética mentira.
Até porque nem sempre pessoas se casam com seus grandes amores.
E até porque, em última análise, quantos amores não são precisos começar e terminar para que haja um que construa algo para além do tempo que o amor está em vigência? É preciso errar muitas vezes para acertar, é fato. Mas não é assim como amor porque ele não precisa da sua ou da minha aprovação sobre o que é certo ou errado para existir. O amor é. Não venha você com idéias requintadas e prontas para enquadrar o amor. Porque ele vai escorrer das suas mãos solenemente.
É comum que confundamos amor com felicidade. O amor pode trazer felicidade e a própria felicidade não existirá sem a presença do amor. Mas amar não é estar feliz. Amar não é distribuir sorrisos e estar em paz. Acham que amor é paz. Não, não... não é. E não me venha com o papo de paixão. Uma coisa é paixão e outra é amor. Desafio quem amou alguém sem ter sentido o que chamam de paixão. Paixão é o nome que dão aos amores desfeitos. É uma desculpa. Ah, não era amor... era uma paixão. Não seja covarde com o amor. Admita que ele veio, passou, e foi. E foi ótimo.
É fundamental encarar a agressividade do amor para que, enfim, possamos vivê-lo em sua melhor forma. Porque o amor é quem nos escolhe e não o contrário. Quando acontece, a hora que você pensa em desistir, ele já lhe ganhou pelas pernas, braços, pela dura-máter. É preciso compreender que nem todo amor que lhe faz mal, que destrói é um péssimo sentimento que não pode ser chamado de amor. É amor, sim.
E somente com os amores brutos e perdidos, inconclusos e escondidos nas trincheiras do tempo é que podemos vislumbrar a sorte de nos encontrarmos com um amor perfeito e construtivo. Destes dos velhinhos no parque. Possivelmente todo mundo quer este amor. E quer passar por cima dos perigosos, nocivos, dos sentimentos rasteiros e instintivos. O que não se entende é que somente através dos amores que não dão certo é que aprendemos a viver mais e melhor o amor para quando novamente ele aparecer, sabermos aproveitá-lo e usá-lo da melhor forma.
O amor ensina.
E só se vive o que se ama.
Não é porque você sofre que passa a ser ruim aquela experiência amorosa. Não é porque destrói que deixa de ser o nobre amor. É preciso coragem para amar e mais coragem ainda para não desprezar o amor. Porque fugir é fácil demais. Correr é fácil demais. Não encarar a vida em todas as suas grandezas – e muitas as grandezas que a vida nos oferece – é mais fácil que vivenciá-las. Mas somente com coragem para viver o que é “certo” ou “errado” é que se torna possível, uma hora, ter a sorte de construir algo.
Para isto, uma palavra de ordem basta: permita-se.
Permita-se viver amores seguros, de mãos dadas no cinema e a companhia certa na hora da missa ou do culto. Permita a alegria dos passeios nas tardes ensolaradas. Mas também permita-se viver a intensidade do desejo, das incertezas, dos amores nocivos e incertos. Dos amores noturnos, de quando todos dormem e somente os lençóis testemunham todo o medo e desejo guardado somente para serem esconjurados naquele momento. Permita o risco. Permita o amor proibido. Permita o desejo.
Permita a vida que, de tão certa e exata, um dia acaba.
Permita-se viver a experiência que alguém, Deus ou a Mãe Natureza, ou algo que você creia com força, lhe permitiu viver. A humanidade ao longo dos séculos tem tentado se impor freios e amarras que não são da vida ou da existência, mas são das políticas conspiratórias para dominar o homem. O homem, indomável, cai nesta armadilha, entre o que pode e o que não pode. Tudo é possível e tudo é permitido desde que lhe agrade e lhe seja bom. Se você gosta, seja. Se você quer, toque.
O amor não pede permissão para acontecer em determinados lares. O amor, sabe-se, não escolhe idade, religião, atenção, o amor não escolhe nem mesmo sexo. E ainda tentam fazer com que ele seja um sentimento exclusivo de determinada frente específica. Há quem tente, de batina, de gravata ou de avental, ter exclusividade por sobre sensações e sentimentos inerentes do animal humano. Não têm.
Portanto: permita-se a tudo que lhe fizer bem de acordo com o seu julgamento. Porque os amores são os amores. E só. Sorte de quem os encontrar para toda a vida e não só para o deleite seguinte. Os amores são brutos e brutos são os homens uns com os outros. Amemos e vivamos com coragem até encontrarmos o equilíbrio das sensações e sentimentos. E então, lá naquele momento final, saberemos dizer o quanto a felicidade foi um momento em nossa vida ou uma constante ao longo da trajetória.
A vida é pra quem tem coragem.
Permita-se.

domingo, 16 de maio de 2010

Dez anos esta noite

A vida não pede licença.
São dez anos e parece que eu consigo ainda lembrar o cheiro do monóxido de carbono que impregnava na sala de recepção do prédio gigante próximo à Praça da Bíblia. A pressa e velocidade dos carros e dos ônibus coletivos que entravam e saíam do terminal que ali funciona contrastavam diametralmente com o aspecto bucólico – e é este o termo perfeito – daquela sala de recepção. O caminho repleto de verde, com plantas, flores e obras de arte – para todos os gostos e conhecimentos – era uma espécie de oásis florestal no meio da imagem clichê da selva de pedra. Era o centro de Goiânia.
Na chegada ao Diário da Manhã através desta entrada, o choque de realidades sensoriais é muito grande. É como se mudasse o clima, o ambiente, a vida por completo em apenas alguns passos, num exercício de realidade virtual tão real quanto qualquer outra como as conhecemos. Os escapamentos dos ônibus assoprando poluição comburida com seus ruídos estrondosos de marchas sendo reduzidas ou aumentadas, o ronco dos motores possantes que impulsionam toneladas, de ferro e pessoas, – tudo aquilo ia sumindo a cada passo que se dava em direção à entrada daquele imóvel, como a última memória antes de adormecermos. A cada metro o verde ia crescendo em nossos olhos, o cheiro da poluição ia perdendo espaço e a vida triunfava solene, no som dos passarinhos nas árvores altas e no silêncio, repito, bucólico.
Mas todas estas impressões eu só fui ter tempos depois, quando entrar ali tornara-se uma tarefa diária, e muitas vezes apressada e árdua. Naquele dia, não. Na tarde daquele dia não havia tempo ou espaço mental para se ocupar da poesia do ambiente construído por Batista Custódio, e de sua mente brotado. Eu não fazia idéia, mas quando da minha primeira entrada em uma recepção de jornal diário, deu-se a minha entrada no jornalismo e na profissão de repórter de um dos maiores jornais diários do Centro Oeste.
Era minha primeira vez.
E, hoje, dia 12, faz 10 anos deste dia.
Eu e o também estudante do segundo ano da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia (Facomb) da Universidade Federal de Goiás, Victor Hugo Lopes, tomamos a decisão no início daquela semana de ir até o DM a fim de conseguir saber mais detalhes sobre o murmurinho de que estavam empregando estudantes por lá. Fizemos a combinação em silêncio nos corredores da faculdade, já que estudantes que ocupavam o lugar de jornalistas formados eram mal vistos pelos professores. Quando não perseguidos. Fizemos, assim mesmo, o nosso plano e por volta das 14 horas da sexta-feira, dia 12 de maio de 2000, entramos na tal recepção do Diário da Manhã em busca de um emprego, estágio, ou qualquer coisa que pudéssemos fazer dentro de um jornal.
Não sei, nunca soube e possivelmente não saberei – possivelmente porque não haverá explicação mais formal – porque ao informarmos da nossa intenção à recepcionista nós fomos encaminhados diretamente para a sala, a mesa e para os olhos inquiridores do dono do jornal. Não fomos recebidos por editores, outros jornalistas, funcionários do RH, nada disto. Encontramos e fomos entrevistados não somente pelo editor-geral, mas o sujeito que criou toda aquela estrutura e todas as demais coisas que fizeram com que seu nome fosse escrito na história da Comunicação de Goiás.
Em coisa de 15 minutos, dois estudantes recém começados no segundo ano de faculdade de Jornalismo deixaram o ônibus do Eixo Anhanguera para estar na sala de Batista Custódio, editor-geral e dono do Diário da Manhã.



“Quem é seu pai? E seu avô” – perguntou um sério senhor de bigodes brancos e de comportamento um tanto quanto curioso para o meu colega de empreita, Victor Hugo. Mais do que querer saber com quem estava falando, Custódio queria saber com a família de quem estava lidando. Pela conversa com ele, eu observava que a situação não parecia boa para mim, principalmente porque calhou do meu sócio na missão secreta de conseguir um emprego era neto de um juiz e fazendeiro bem conhecido do nosso entrevistador, da cidade de Jandaia.
Mais duas ou três perguntas amenas para ele, os olhos ágeis e misteriosos (curioso olhar) de Batista Custódio me descobriram.
“E você?”, me perguntou, economizando palavras. E eu assim o fiz, economizando as interrogações dele. “Sou filho de ninguém que o senhor conheça. Não tenho família em Goiás. Eu vim do Rio de Janeiro, mas moro em Anápolis”, expliquei já sem qualquer compromisso. A esperança findara-se quando vi que a expectativa da entrevista passava pelo campo de afinidades pessoais, ou regionais. O editor-geral do Diário da Manhã retomou o olhar a mim, deixando de lado algum tipo de leitura que fazia na mesa e, por sobre os óculos, disparou, sem rodeios: “Mas você não é daqueles comunistas de faculdade vindo do Rio de Janeiro, não, né?”.
“Não, não sou. E nem esses maconheiros de faculdade de jornalismo”, eu respondi. Mentalmente. Porque, na verdade, o que saiu foi apenas uma risada mofada, daquela bem sem intenção de sorrir, e a negativa, alegando que, não, eu não era comunista de faculdade. Em 2000, aliás, fora dos museus ideológicos dos guetos políticos, era bem difícil encontrar a tal espécie há muito em extinção: o tal comunista.
A mim, Batista não perguntou mais nada. Das muitas perguntas simpáticas que fez ao Victor Hugo, a mim, só sobrou esta. O velho jornalista, de corpo opulento e camisa meia manga, recolheu o braço direito e o colocou por baixo da mesa. Em seguida uma campainha estridente, daquelas que parecem um choque elétrico, tocou e a secretária, cuja tão curta distância de nós permitia que ela ouvisse um sussurro do chefe, veio até nós. A ordem de Batista: encaminharmo-nos para Ferreira Junior, então chefe de redação.
Nós, eu e Victor Hugo, não sabíamos. Mas estávamos contratados em nosso primeiro emprego como repórteres da Editoria de Cidades do Jornal Diário da Manhã. Para começar a trabalhar na segunda, 15 de maio de 2000.



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De lá para cá, muitas impressões ficaram. Muitos dissabores também. Porém pequenos, daqueles que o desgaste que o tempo promove nas coisas faz com que fiquem minúsculos, imperceptíveis. E com um ciclo de uma década de profissão como jornalista, prefiro eu sempre repetir “repórter”, um dos ensinamentos para a vida que mais ficam em mim é este: poucas são as infelicidades da vida as quais, de grandes no momento, mostram-se tolas e quase nada quando analisadas em perspectiva. Os percalços e dificuldades incomodam como uma topada no pé da mesa. A dor, de intensa no instante, some até mesmo da memória minutos depois.
Assim temos feito, assim Eu tenho feito: vivido eventuais dissabores, mas saboreado em minha memória cada instante de prazer destes 10 anos evoluindo em pautas, reportagens, descobertas, disputas, embates, erros, acertos e, certamente, em crescimento profissional. E pessoal, por causa da Causa profissional.
Eu poderia falar nesta reminiscência dos meses que fiquei com atraso de salário no Diário da Manhã. Certamente, muitos dos que por lá passaram, antes, comigo e depois de mim, se lembram disto e me cobrariam para narrar tal fato. Principalmente os professores da UFG que odiavam tanto o jornal. Insistiriam para que eu contasse estas passagens e não fazer parecer que o DM era um mar de rosas e de doces poesias. Não era. Nunca foi. E nem era para ser.
No entanto, eu prefiro contar e recobrar de momentos que até hoje carrego comigo. Se eu recebi meu salário com atraso por dois, três meses, hoje já não preciso mais pensar nisto, já não vivo sob o jugo do salário que falta, do dinheiro que eu conto para pagar o aluguel. Isto passou e, por mérito meu, isto passou. E em última análise, me perdoem os colegas da época: mas para quem fazia segundo ano de faculdade, tinha 22 anos e não sabia coisa alguma da profissão, ganhar o piso como jornalista, estar dentro de um diário, e emplacar matérias e reportagens na capa do jornal, já era um salário e tanto.

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Uma das lições, explicadas – claro – à base do esporro, que Batista Custódio me brindou aconteceu numa tarde quente de Goiânia em que ele me chamou à sua sala e reivindicou alguns pontos sobre determinada reportagem. Entre outras coisas, disse, relendo um material que eu tinha escrito, que eu escrevia muito “que”. “Seu texto tem muito “que”. Tudo tem que, que, que”, disse ele. Eu, distraído com o comentário, por inocência e desleixo, já que não tinha ouvido o que ele dissera, perguntei: “Que?” E ele, concordando com a minha distração: “É... ‘que’”.
Demorei alguns minutos, depois que deixei a sua sala, para entender a razão da reclamação dele: meu texto trazia muito repetidamente a palavra “que”. Na mesma conversa, ele cortou quase metade do texto, alegando ter muita embromação e me dizendo uma frase que desde então me acompanha:
“Uma reportagem precisa ter uma informação por linha. Uma informação por linha”.
Saí de sua sala com um ar pesado, de quem acaba de levar uma bronca do chefe, no caso, do patrão-maior. Eu ainda não sabia que era o jeito dele de partilhar conhecimento e que, ali, naquele instante, ele me ensinara a lição mais preciosa que tenho na vida: uma informação por linha.
E, hoje, uma década depois, eu sempre me faço a mesma pergunta toda vez que sento para escrever qualquer texto:
– Será que eu ainda repito mesmo muito “que”?
A vida não pede licença.


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E muito menos desculpa.
Que venham os próximos anos e décadas.

PSDB adota a estratégia do confronto em Anápolis

Tucanos apostam no enfrentamento de agendas em relação ao Governo do Estado e em toda atividade com presença de Alcides, o senador Marconi Perillo marca território em terras anapolinas. Políticos afirmam que ação gera comparação e é “tiro no pé do PSDB”



Começou com o que parecia uma fatalidade de agendas. Justamente no dia em que Alcides Rodrigues, direto de Goiânia, anunciava investimento de R$ 12 milhões para a infraestrutura de Anápolis, e na mesma data o governadoriável Iris Rezende visitava a cidade para acompanhar um evento sobre a Anistia, o pré-candidato e senador tucano Marconi Perillo visitava as emissoras de rádio da cidade. E na mala, trazia muita, mas muita munição contra seus supostos adversários.
Na ocasião, que ganhou repercussão para bem além das cercanias anapolinas, marcando a semana no Estado de Goiás, Perillo tentou desferir golpes pesados contra Iris Rezende, mas com a intenção virulenta mesmo de atingir ao governador Alcides Rodrigues. Enquanto a Caixa Econômica Federal premiava o Governo de Goiás pelo comprometimento e lisura nas contas públicas, em audiência no Palácio das Esmeraldas, Marconi Perillo tratava de ressaltar que o governo era lento, sem compromisso e cheio de falhas de todas as naturezas. Mas, até o momento, tudo parecia uma coincidência.
Na semana seguinte, as possibilidades de coincidência cessaram à medida que a história completa se repetiu. Novamente enquanto, de Goiânia, Alcides enviava à cidade de Anápolis mais uma verba, a tropa tucana reiterava ataques ao governo e a seus aliados. Na ocasião, Alcides Rodrigues assinou a emissão de R$ 1 milhão para a construção da nova Câmara Municipal, um projeto realizado em parceria com a Prefeitura da cidade. Por aqui, na imprensa líderes tucanos locais tentavam destituir os méritos da ação, alegando que o senador Marconi Perillo destinara à cidade verba de soma semelhante e que a administração local não teria tomado iniciativa de buscar.

Alerta
A gota d’água, porém, aconteceu na última semana quando da visita do governador Alcides Rodrigues à cidade para dar início às obras de duplicação da Avenida Pedro Ludovico. Imediatamente, notícias sobre Marconi Perillo ganharam espaço no noticiário diário das emissoras de rádio que se dedicam a fazer a cobertura jornalística da cidade.
O objetivo, novamente, é claro: disputar espaço do eleitor anapolino nas manchetes. A diferença é que enquanto, como senador, Marconi Perillo somente tem a projetar ataques ou mesmo realizar comentários sobre sua pré-campanha, Alcides, que não é candidato e, portanto não tem qualquer compromisso mais contundente em mostrar serviço, surge na cidade anunciando obras e benefícios.
No microblog Twitter, os políticos da cidade já alertaram para a manobra. O presidente da Câmara Municipal, Sírio Miguel Rosa (PSB), foi o primeiro a dar notícia da disputa pela mídia. “Todo dia que o Governador vem a Anápolis tem noticia do Senador”, disse. E depois emendou na explicação do caso, sobre uma visita à maternidade Doutor Adalberto: “Hoje estão divulgando a visita que o senador não fez na semana passada”.
Enquanto isto, em uma emissora de rádio, a vereadora Mirian Garcia (PSDB) concedeu entrevista sobre o caso da verba do Turismo, que seria de responsabilidade de seu colega de partido e senador. Ela ainda anunciou que o senador e pré-candidato estará na cidade na próxima semana, dia 25, para tratar principalmente do viaduto do Daia.

Comparação
Através do mesmo espaço virtual, foi a vez do deputado federal Rubens Otoni destacar a competição travada pelo tucano Marconi Perillo por dividir a atenção do anapolino com o atual governador. Para ele, o PSDB se “desequilibrou e já não sabe mais o que faz, diante da evidente perda de espaço”.
Em resposta a Sírio Miguel, ponderou o deputado do PT. “Este negócio de trazer o senador em Anápolis toda vez q o governador está aqui é um tiro no pé”, disse. Ainda segundo Otoni, a movimentação serve como meio de comparação “e aí é fatal”. “No governo do PSDB, prometeram para Anápolis, o trem-bala, a Plataforma Logística e o Centro de Convenções. Cadê?”, indagou o parlamentar, exaltando o perfil de gestão e parceria administrativa proposta por Alcides Rodrigues. “Com todas as dificuldades deixadas pelo governo anterior, o governador Alcides Rodrigues fez muito mais por Anápolis”, sentencia.
Rubens Otoni enumera as promessas feitas por Marconi Perillo em sua passagem de sete anos e três meses no Governo do Estado e compara com a ação de Alcides Rodrigues. “Num trabalho respeitoso e em parceria com a prefeitura, Alcides traz asfalto, saneamento e agora ajuda a construir a sede da Câmara. Enquanto em Anápolis, alguns falaram em trem-bala, Centro de Convenções e prometiam emenda para ajudar na construção da Câmara”
“É por isso que bate o desespero. E aí os erros aparecem mais. Vir aqui no mesmo dia do governador é um tiro no pé para o PSDB”, finaliza Rubens Otoni.

domingo, 9 de maio de 2010

O Brasil que Serra quer inventar para gerir


José Serra fez um governo positivo em São Paulo. Tem, de certa forma, uma identidade com o perfil médio do cidadão Estado. Sobretudo em relação a alguns setores que, se não são os mais volumosos, são – de fato – os mais influentes. O perfil de José Serra se encaixa com singela harmonia ao paulista. Não é difícil imaginar como seria um fracasso se, por um acaso, aquela mesma imagem fosse transferida para outro Estado. Ou alguém consegue pensar em Serra governando o Rio de Janeiro?
Serra é de poucos sorrisos e de humor sem graça. Falta leveza ao político, assim como falta à cidade de São Paulo e, ao todo, ao espartanismo do Estado. São Paulo não é um lugar para se rir, mas para produzir. É vital ao Brasil, é um Brasil dentro do Brasil, propriamente dito.
Acontece que, como nas palavras do ex-ministro e deputado federal, Ciro Gomes, José Serra é um cara chato. Não tem vícios, não gosta de beber, não torce por time algum (segundo ele, a manifestação do governador tucano pelo Palmeiras é pura questão de estética política do que paixão de fato). Serra é um paulista conservador, que até mesmo o espaço para o ócio é reservado na agenda. Esta é a definição de Ciro Gomes, um paulista de nascimento, que desde a primeira infância ganhou os contornos de sua personalidade moldados pela leveza e pela irreverência do nordeste brasileiro.
E, para qualquer nordestino, ou qualquer cidadão médio, (atenção, “médio”) do litoral carrega em si uma leveza que não se torna compatível com a sisudez de Serra. É um assunto questionável e subjetivo, mas é interessante perceber o quanto temas subjetivos, na prática, funcionam e se encaixam com naturalidade.
Agora, na pré-campanha das eleições, quando os candidatos estão em fase de aquecimento, surgem as evidências mais claras das deficiências, dos pensamentos, do perfil mais puro e sincero dos postulantes. Como numa preparação para uma maratona de atletismo, a fase de aquecimento e treino antes da disputa é aquela onde aparecem os pontos a serem melhorados, as lesões, e os pontos positivos de cada um.
E é justamente neste ponto que aparece o José Serra que Ciro Gomes apresentou. O chato. O Serra que não combina com o Brasil e com o brasileiro. O Serra que desliza em suas convicções, como a que afirma que os fumantes – que consomem tabaco e outras tantas substâncias nocivas – que mesmo adoecendo pelo vício continuam fumando “são pessoas sem Deus no coração”, é um tipo de cidadão que o Brasil ainda não aprendeu a cultivar. Serra que ser um cidadão e quer que o país seja o que ainda não é, o que não está pronto para ser e – em última análise – o que não se sabe se um dia vai querer ser. Serra quer um brasileiro de Esparta: direto, reto, perfeito numa perfeição chata de ser.
E por isto a crítica recorrente a Lula. Lula é o Brasil e o brasileiro. Enquanto os caciques do PSDB atacam os “modos” do presidente, o resto do país, em grande escalda, saúda o jeito de o presidente da República se referir às questões republicanas nacionais e a forma como se comunica com o brasileiro. Mais do que não admitir, a ‘intelligentsia’ do PSDB não consegue entender que é tudo uma questão de identidade.
Lula fala do Corinthians, seu time do coração e um dos mais populares do país. Faz comparações com futebol, conta piadas envolvendo cachaça, sua nada escondida predileção no mundo das bebidas. Lula fala “merda” no palanque. E para tudo isto, o alto comando dos tucanos tem uma resposta negativa, crítica e altamente moralista.
Mas, afinal, para quem discursam os tucanos? Certamente não é para o mesmo Brasil que Lula se dirige, quando aparece suado, com aparência desgastada, falando às multidões. O PSDB defende o Brasil engomado, o Brasil certinho, o Brasil que não existe e, novamente, sabe-se lá se alguém quer que ele exista.
Até mesmo o slogan da pré-campanha do PSDB com José Serra revela traços desta ambição, de transformar o país em um outro. “O Brasil pode mais”. Claro que pode e a prova disto é que não precisamos mudar de cara para sermos o que somos capazes de ser. Não precisamos que doutores de alto intelecto formal nos conduzam por somos, sim, uma nação a caminho do conhecimento e, mesmo assim, do empírico saber. Temos nossas formas de conhecimento, adquiridas de forma particular e é esta a nossa identidade, quer professores, estudiosos e tucanos queiram ou não. Nós somos um pouco Lula e estamos bastante distante de sermos um pouco, um pouquinho que seja, Serra.
E esta não é somente uma identidade brasileira, única. Antes que algum boçal reivindique que este artigo é uma defesa da sub-raça, do Zé Carioca que existe em nós, e ele existe. Mas a história recente dos Estados Unidos aponta para um caminho semelhante vivido nas eleições de Obama. Na mesma época da pré-campanha, o negro Barack Houssein Obama passou por uma mudança de imagem que o aproximou do americano médio. E assim como nós temos o pejorativo Zé Carioca, o americano médio tem o seu: Homer Simpson. O pai de família atabalhoado, confuso, preguiçoso, viciado em cerveja com os amigos, cheio de falhas de caráter e altamente dado à omissão é o retrato do americano e, daí, a identificação na relação de amor e ódio de Homer com as diversas alas sociais dos Estados Unidos.
No programa mais popular dos EUA, da apresentadora Oprah Winfrey, a Hebe negra da TV de lá, a hoje primeira-dama e toda chique e elegante Michele Obama fez revelações que, à primeira vista, soaram como música para os adversários republicanos. Ela disse que seu marido, quando chegava do trabalho, exalava um cheiro pouco agradável. Afirmou que quando ele tirava os sapatos, ninguém podia estar perto, dado o seu chulé. E, por fim, insinuou que Obama, à noite, era vítima de recorrentes... flatulências. E, por conseqüência, ela também era vítima do marido.
Em resumo: Obama tinha o popular cecê, tinha chulé e peidava. Sim, o presidente americano peida.
No entanto, a simples admissão disto parecia a condenação do pré-candidato democrata. O americano iria hostilizá-lo por isto. A turma de McCain soltou fogos, exultante. Mas o ‘inesperado’ para eles aconteceu. A popularidade de Obama cresceu assustadoramente e o americano criou identidade com o candidato negro, que trabalha, sua e fede, tem chulé e solta peidos à noite, antes de dormir.
Descobriram que Obama era um tipo de Homer. Descobriram que Obama pertence, sim, à humanidade, apesar de tudo.
A estratégia, muitíssimo bem calculada por parte dos marqueteiros, deu certo. A criação de um elo mediante a identificação foi firmado. No Brasil, Lula foi redefinido por Duda Mendonça que lhe pediu algo inédito,de tudo o que Lula ouvira como eterno candidato petista: seja quem você é, não mude. E o Brasil descobriu que Lula é brasileiro, meio Zé Carioca, meio Homer, meio como o nosso chefe, ou o nosso empregado. Lula não é um sujeito difícil de ser encontrado, mas sim é um cara como aquele que vemos aos montes pela rua. Lula é um pouco o nosso espelho.
Só que Serra não admite isso e não quer isto para ele, para os seus e nem para o Brasil. Serra quer inventar um Brasil particular, que ainda não existe, e aí sim, a partir deste novo país, ele quer ser o seu gestor, o seu avatar, a sua referência. Serra é o Lula de um Brasil que sequer foi inventado, sequer foi aventado pelos brasileiros. É a imagem chata de um Estado espartano, igualmente monótono e com ares de aristocracia separatista, baseado no lema: nós levamos o Brasil nas costas. E leva. São Paulo é, quem, carrega este país sob diversos aspectos. E acredita que, em nome disto, pode mandar no resto do país: nos seus modos, pensamentos e anseios. Alguém se lembra do cara que carrega o artilheiro campeão, depois da final decisiva?
José Serra, portanto, não está errado. Nem podem ser classificados erros e acertos neste processo. Mas ele é inadequado para o Brasil como nós o conhecemos hoje. Ele é parte integrante de uma elite importante e bastante marcante em seus traços e maneirismos e, por isto mesmo, é uma referência em São Paulo, a terra que mais o idolatra, que mais o entende e, por que não dizer?, que o inventou para o resto do mundo. Mas para o Brasil, aquela figura sem alegria, de sorriso frio e sem vitalidade, cujas imperfeições são apagadas como a celulite da modelo na capa de revista masculina, não serve como ponto de partida, não desperta paixões.
O Brasil de Serra é, ainda bem, uma utopia. E que Deus, aquele que não castiga “os fumantes ateus”, Oxalá, São Jorge e Xangô, Santa Bárbara e Iansã, e todas as divindades da diversidade do Brasil nos protejam para que este projeto não saia dos planos tucanos. Que fique lá, como um sonho emoldurado eternamente no conforto e no isolamento do Palácio dos Bandeirantes.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O efeito "Gomide" na pesquisa de Anápolis

Iris Rezende Machado, se um produto ou uma marca comercial fosse,seria o que na publicidade e na administração os acadêmicos e pesquisadores chamam de “case”. O tal “case”, um simples charme do que traduzimos intuitivamente como um “caso” é nada mais que um exemplo e um modelo curioso a ser analisado com cuidado, verificando todas as situações em que aquele fato se deu e como foram os seus desdobramentos. Um exemplo rápido de ‘case’ na publicidade: a recuperação editorial, financeira e de imagem do jornal carioca O Dia.
Quando normalmente uma empresa mata uma marca para fazer o nascimento de outra, limpa, nova e com a roupagem que se deseja dar, o diário O Dia conseguiu fazer tudo isto mantendo a sua marca, sem troca de cara. Um ‘case’ clássico estudado em vários níveis por pesquisadores de diversas áreas, da economia à comunicação.
Pois Iris Rezende, como político, se reinventou. Ele é como O Dia. Está longe, hoje, de ser o político considerado ultrapassado, desgastado e com uma imagem presa a outras eras da política de Goiás ou do Brasil. Do contrário, é atual e possui traços de modernidade em sua mais recente gestão, à frente de Goiânia.
Mas mesmo assim, há quem se recorde de Iris Rezende há, 30, 40 anos. E por isto guarda a imagem dele como um político carregado de histórias, de decisões naturais que o levaram a desagradar determinados grupos ou até mesmo alguns municípios. Em Anápolis, o retrato dos quadros PMDB estadual sempre estão marcados por estas ações do tempo. Trazem manchas amareladas de governos que, na opinião de muitos anapolinos, deu as costas para a cidade, ou não a atendeu conforme a sua importância política.
Hoje, analisando este momento pretérito da política, é mais fácil compreender que as disputas internas e de nomes antagônicos no cenário é que tiveram como efeito colateral esta mitigância de Anápolis a segundo plano. Mas, no calor dos acontecimentos é impossível analisar a história. Mesmo assim, ainda nos dias atuais, há quem sinta o quente daquelas disputas e rechace o nome de Iris Rezende por conta do seu passado e não do seu presente que nem chega a ser analisado. Coisas de paixão, como é a política.

Empate
No entanto, neste cenário municipal – olhando especificamente Anápolis – percebe-se uma mudança na visão que o anapolino tem do peemedebista. De 2002, 2006 para cá, os nomes do PMDB, como Maguito e Iris foram testados e todas as vezes a cidade descartou confiança a ambos em nome do que já houve nesta relação em outros carnavais. Agora, a situação dá claros sinais de mudança. Parece que algo pde ter mudado. E de fato aconteceu. Mas se Iris é o mesmo de sempre, já que não se fizeram adulterações significativas na matéria, o que aconteceu?
E então entra um efeito notável na política e que em Anápolis está cada vez mais claro: a transferência de credibilidade. A pesquisa Fortioti/Jornal Estado revelou na última semana não somente o grande momento pelo qual a gestão de Antônio Gomide atravessa, com quase 80% de aprovação, e o prestígio absoluto de Rubens Otoni – lembrado por mais de 68% dos eleitores para uma vaga no Senado, mas também reportou a dados eleitorais interessantes. O que mais chama atenção é que o antes preterido Iris Rezende agora cola no (também) antes queridinho da cidade, Marconi Perillo.
Se existe uma diferença bem pequena na aferição estimulada, na pesquisa espontânea – aquela que o cidadão abordado cita um nome que lhe vem à mente – registra-se um empate técnico. Marconi Perillo tem 19%, enquanto Anápolis dá a Iris Rezende 18,3% das intenções de voto.
Se Iris não mudou, mudaram as companhias. Se não foi possível reinventar um mesmo político, como fez O Dia, a mudança vem a partir da credibilidade que existe nas figuras de Rubens Otoni e de Antônio Gomide que tem feito uma administração irrepreensível, tendo 3,5% de desaprovação, valor este inferior à margem de erro que é de 4,9%. A simples aproximação de Iris Rezende a imagem destes nomes e a união destas forças ao discurso de que representam de fato a base política do presidente Lula em Goiás gerou um grande ‘case’ político, renovando e reoxigenando o conceito político que a cidade de Anápolis tem a respeito de Iris Rezende. Bem cotado, Lula tem 83,7% de aprovação na cidade.

Prestígio

Se a esperança tinha o desafio de vencer o medo, em Anápolis ela, a esperança, dá mostras de estar soberana, fazendo os anapolinos entenderem a importância do momento político de se referendar um candidato que representa o Governo Lula e o Governo Municipal de Antônio Roberto Gomide.

A campanha oficialmente ainda não começou. E e estes nomes citados, Lula, Gomide e Otoni, sequer foram às ruas da cidade e do Estado para pedir votos e explicar pessoalmente o projeto que existe para Goiás. Portanto, o acumulo de prestígio há anos não verificado de Iris em Anápolis é fruto tão-somente do aquecimento eleitoral pela proximidade com estes quadros. É de se imaginar o que poderá ocorrer quando, em campanha, Antônio Gomide colocar-se nas ruas ao lado da sua aprovação maciça para – fazendo de sua credibilidade – pedir que também creiam no projeto de Lula a ser seguido e implantado de vez em Goiás, através de Iris Rezende.

É sabido que em política a lógica é apenas uma variável remota de algo que pode acontecer. Portanto, desencadeamentos matemáticos e previsíveis têm o mesmo risco de procederem ou não de uma improbabilidade. Delírio e certeza se misturam com o mesmo peso. Mas, neste momento, uma afirmação categórica e precisa é permitida na análise dos fatos: o prestígio do PT de Rubens Otoni e de Antônio Gomide – e sua administração de resultados – já começa a dar sinais de que o período de colheita está próximo. E a safra pode ser das melhores.

(des)Acertos de uma eleição

No momento de azeitarem as máquinas, partidos e dirigentes políticos deslizam nos discursos, atacam sem estratégia a quem passa pela frente mas, principalmente, esquecem que o passado é a grande lição para um novo futuro




A última semana política em Goiás teve de tudo. Tudo mesmo. Das situações mais inusitadas até o óbvio ululante. Este exemplo ficou por conta do senador tucano Marconi Perillo que, via Twitter, “anunciou” oficialmente o que se sabia desde 2006: ele é pré-candidato do PSDB ao Governo do Estado. Em um momento de ressaca das definições acerca das desincompatibilizações, a busca por geração de notícias que ocupem o espaço destinado à política na imprensa goiana é uma tarefa árdua. Mas os dirigentes e quadros políticos de todos os partidos se esforçaram.
Com declarações confusas e, muitas vezes, visando o ataque pelo ataque, sem que haja na afirmação qualquer lastro de estratégia, a comunidade política parece viver agora um hiato de calmaria e intensa atividade interna, na qual os próprios políticos, acostumados com o calor das eleições, não estão acostumados. E então começa o festival de declarações tresloucadas.
Se o melhor aprendizado para a construção do futuro é a observância dos erros cometidos no passado, esta lição, por enquanto, não tem feito grande efeito dentro de grandes partidos e na intelectualidade de grandes nomes da política goiana. A começar pelo PMDB.
Legenda que tradicionalmente reúne as mais diversas tendências e perfis de quadros, em Goiás o partido mantém esta pluralidade e, claro, paga um preço por ela. Depois de sacramentar a pré-candidatura de Iris Rezende ao Governo e por fim a uma crise de “tensão-pré-eleitoral” em todos envolvidos direta ou indiretamente com a política, agora é o momento de organizar a chapa e o próprio partido, preparando as bases lógicas para uma campanha eleitoral.

Isolamento
E foi neste processo, dito mais fácil depois dos dias de nervosismo e apreensão sob o risco de não poder contar com a principal estrela da legenda, que a coisa desandou. A conversa que vaza para a imprensa com recorrência é a de que há uma ala importante e tradicional no PMDB que busca a formação de uma chapa pura, ou seja, com Iris candidato e na vice outro peemedebista.
“Temos um histórico de derrotas por não termos feito alianças”, grita Daniel Vilela, vereador em Goiânia, que traz no DNA tanto a política, quanto o partido. Ele é filho do ex-governador e atual prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela. “Interesses pessoais não devem sobrepor aos do PMDB”, é o que garante o deputado estadual Thiago Peixoto. Além deles, outro nome surge considerando a hipótese um absurdo. Francisco Junior, presidente da Câmara Municipal de Goiânia, não quer nem pensar na possibilidade.
As declarações partem com contundência por parte da chamada nova geração do PMDB, que desde cedo aprendeu do jeito mais duro, com a dor da derrota, que política se faz com união de forças e distribuição de louros e tarefas. O isolamento em uma chapa somente em casos urgentes, específicos e isolados. Mesmo assim há quem aja dentro do partido defendendo a idéia de que nomes como o do presidente do partido, Adib Elias, possam ocupar este espaço. E então o PT e os demais partidos que integram a corrente simpática a Iris ficariam chupando o dedo.
No entanto há quem veja a atitude dos velhos caciques do PMDB como uma estratégia clássica e manjada: a da negociação. “Fazem isto para negociar. Todos já aprenderam as lições do passado, mas agora fazem isso para chamar atenção, ganhar mais espaço e, quem sabe, atrair novos aliados”, sentencia um deputado peemedebista que se diz “um pouco descolado da linha irista”, mas mesmo assim um defensor da candidatura com o ex-prefeito à frente.
E, de fato, tanto no meio político como na imprensa, a hipótese de charme de negociação é a mais viável. Isto porque ninguém duvida que os peemedebistas não tenham aprendido com o passado recente. Em 2006, com Maguito Vilela à frente nas pesquisas e a possibilidade clara de aglutinar o PT ainda mais, o grupo do PMDB decidiu negar a vice ao partido que tem a presidência do Brasil e formar uma chapa pura. Com Onaide Santillo na vice, a derrota foi acachapante a começar pelos resultados apurados em Anápolis, terra da ex-deputada.


A candidatura que nasceu de um aborto

Mas não somente no PMDB que a memória para fraca. A suposta ‘memória seletiva’ dos políticos goianos é igualmente manifestada no lado exatamente oposto à legenda de Iris Rezende. No PSDB, os tucanos começam a se organizar na busca por um vice competitivo, e na formação de chapas tentadoras proporcionais e ao Senado.
Mas foi em uma entrevista, no mínimo curiosa, que um dos quadros mais históricos da política de Goiás manifestou-se com claro embaralhamento entre passado e presente. Perto de completar 80 anos, seu aniversário é neste dia 15, o ex-prefeito de Goiânia Nion Albernaz ocupou a imprensa para analisar os diversos cenários. E calhou de atacar a pré-candidatura apoiada pelo governador Alcides Rodrigues, liderada pelo ex-prefeito de Senador Canedo, Vanderlan Cardoso.
Segundo Albernaz, a candidatura o republicano nada mais é que um projeto forjado na cúpula dos partidos, ou seja, não tem apoio das bases nos municípios ou mesmo respaldo popular, ao contrário – é claro – da que ele defende, a do senador Marconi Perillo. “Este projeto foi criado dentro do Palácio, por lideranças de legenda. É uma candidatura de cúpula”, disse, finalizando que por esta característica, o projeto de Vanderlan estaria fadado ao fracasso.

Memórias
Outro golpe de memória que pode ser fatal para uma declaração neste momento político. Se hoje Marconi Perillo é hoje um líder inconteste da política de Goiás, depois de ser reeleito governador, sua origem está longe de ser popular ou de ter tido respaldo intenso das bases dos municípios. Em 1998, quando era um jovem e apagado deputado federal, Perillo conseguiu espaço para ser candidato no projeto do Tempo Novo, depois de ser criado – ou melhor inventado – após uma desistência.
Quem se recorda dos bastidores daquela eleição, afirma que até mesmo o então vice, o hoje governador Alcides Rodrigues, prefeito de Santa Helena, já havia sido escolhido, enquanto somente se esperava uma definição para a cabeça da chapa. E foi Roberto Balestra – que era o nome o principal nome para ocupar este espaço – quem desistiu de última hora de assumir a árdua missão de enfrentar o então todo-poderoso Iris Rezende, que abriu espaço para o jovem Marconi Perillo.

Troca de papéis
Marconi, portanto, além de ser um líder que naquele 1998 foi fabricado entre tucanos e pepistas isolados e recuados em guetos políticos diante da supremacia peemedebista, teve sua candidatura nascida a partir de um aborto projeto montado para servir a Balestra. Perillo foi chamado e conduzido por nomes como Henrique Santillo, que ainda teve resistência de entrar no projeto de início, e Fernando Cunha Junior, que até mesmo topou ir para o sacrifício de uma disputa do Senado para bancar a chapa quixotesta. E deu no que deu.
Mas Albernaz decidiu se esquecer disto, possivelmente de forma estratégica. Tudo porque agora, a comparação dos dois momentos – 1998 e 2010 – são extremamente válidos e semelhantes. A panelinha de 98 pode ser bem configurada pela vontade de Perillo em ocupar pela terceira vez o posto de governador. E quem surge no cenário como o novo, aquele que vem da escuridão do desconhecimento das massas para tentar lutar com o Golias político é justamente Vanderlan Cardoso. Mas, pensar nisto e – pior – revelar este pensamento é perigoso e não interessa ao grupo tucano.
Por fim, a favor de Vanderlan Cardoso está um argumento importante. Se de fato seu projeto nasceu de reuniões de cúpula envolvendo Alcides Rodrigues, Barbosa Neto, Sandro Mabel, Jorcelino Braga e outros caciques de alta linhagem dos partidos políticos de Goiás, Vanderlan conta ainda com o importante respaldo de Abelardo Vaz. O prefeito pepista da acanhada Inhumas nada mais é que presidente da AGM, a Associação Goiana dos Municípios, o que faz com que a pré-candidatura de Vanderlan nasça do sentimento municipalista. Se conseguir efetivar a idéia – e usá-la – de que tem o respaldo dos prefeitos e estes o apoiarem em seus sítios eleitorais, Cardoso terá uma certeza: vai dar muita dor de cabeça para Perillos e Rezendes por aí.

 
Ações de bastidores ‘amolecem
o coração’ de Ronaldo Caiado

Além deste cenário de análises ‘estrategicamente delineadas’, para o PSDB a busca por alianças segue sendo um enorme desafio. E assim, para dar respaldo no tempo de TV e promover capilaridade política para a campanha, o DEM continua sendo o grande prêmio a ser conquistado. E na última semana, a movimentação parece ter surtido efeito.
Se chegar ao presidente da legenda, Ronaldo Caiado, é uma tarefa espinhosa, a tática tucana é convencer as bases democratas. E que elas façam o serviço de amolecimento do ‘coração político’ de Caiado. Assim está sendo feito e assim parece gerar resultados. O deputado, que recentemente foi novamente ríspido com Perillo por conta do episódio Junior Friboi, agora já dá sinais de ponderação.
Frases como: “Precisamos nos unir com partidos e grupos que respeitem o DEM e que sejam afinados com nossa forma de pensar” e “Vou ouvir as bases e tomar uma decisão. Não podemos agir de forma isolada, mas sim consultar a todos”, vindas de Ronaldo Caiado, já representam muita coisa. Um passo para trás para o político que dia destes estava soltando a uma rádio de Anápolis coisas como “Não convivo com estes senhores (Junior e Marconi)”. Já para a legenda, parece ser um passo na direção do ninho tucano. Em se confirmando a possibilidade, Caiado será outro que terá de esquecer o passado e engolir Marconi Perillo de quem já se falou de quase tudo contra.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobre meus pés cansados

Bem atrás do encontro da Avenida Engenheiro Portela com a Brasil Sul há uma rua escondida. Bem escondida. Tão escondida que nem parece com a Anápolis que se conhece hoje, agitada, movimentada. Não se assemelha nem mesmo com a Anápolis que está uma rua acima, bem ali, no encontro da Engenheiro Portela com a Brasil Sul. Na rua se divisa claramente dois momentos de uma cidade que, no tempo, é possível contar meio século ou mais. De um lado, construções, casas, coisas comuns de quaisquer duas da região central. Mas do outro há terrenos grandes, com edificações rústicas e distantes. Do lado esquerdo de quem a sobe, a vida. Do direito, o delírio do túnel do tempo.
Escondida nesta rua há – mais escondida ainda – uma igreja. A igreja sintetiza os elementos curiosos desta via. É antiga, colonial, como se tirada de Ouro-Preto, Pirenópolis, Cidade de Goiás. Mas não é a Ouro Preto dos shows e movimentações turísticas, nem a Pirenópolis dos carnavais dos brasilienses. É do bucolismo só visto nos livros. O tempo suspende a respiração e os motores deixam de passar marchas nervosas para não fazerem barulho. Desconfio que, ainda que o fizessem, o som misteriosamente não chegaria lá.
A igreja bicentenária tem pouco mais de um ano e meio de construída e o luxo de sua edificação está na paupérrima simplicidade com que foi concebida. É até impensável que nos dias de hoje, de igrejas suntuosas, cujo sistema de ar condicionado central é o preço de alguns carros populares, aquela igrejinha simples se impõe, magnânima, em direção ao nada. Isto, ao nada. Ninguém a vê. Ninguém sabe que ela está lá.
Não sou católico. Não sou nem mesmo batizado em qualquer religião. E não admito que professem ignorâncias a respeito disto. Mas naquela igreja, a missa é rezada em latim. A mim, parecia fascinante. Sem que qualquer pessoa do meu convívio soubesse, lá fui ter naquela igreja. Por alguns domingos, às seis horas, lá estava eu tentando aprender os ritos de sobe, desce, ajoelha, repete. Nunca aprendi. Não deu tempo porque faltou empenho, confesso. Eu não estava lá para ser católico. Eu não precisava de conversão ou mesmo de perdão. Eu estava lá pela serenidade da paz que somente quem professa a fé possui. E crer é sentir. Crer é soltar o corpo e libertar a mente. E eu via aquelas pessoas dedicando-se àquilo. E aquilo me fez bem.

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Em 2007, em uma das entrevistas que fiz para o meu programa na extinta TV Comunitária de Anápolis, recebi o bispo Dom Manoel Pestana. Era uma conversa para 30 minutos. Mas, admirado com tamanha profundidade de comentários, decidi estender, estender e conversei com ele por duas horas. Abusando de sua paciência e conhecimento para aquilo cuja própria vida foi dedicada, o indaguei: O que é Deus? E lá foi ele explicar, na filosofia da cristandade o que aquilo, o Deus, era, é. O que é fé? – redargüi novamente. E ele me contou uma belíssima história sobre o homem com fé que, na hora da morte iminente, pediu por seu Deus e seus protetores. Nunca a esqueci e conto a todos, emocionado que fico, a mesma história.
Para o mesmo programa, entrevistei e conversei muito com o pastor José Clarimundo Cesar, da Assembléia de Deus. Provoquei, busquei, tentei encontrar nele a figura do ‘crente’. Não encontrei. Foi ponderado, intelectualizado, ligado à razão. Ele não se lembra, e nem eu o revelei, mas foi em sua igreja o meu primeiro contato religioso quando em Anápolis cheguei. Conheci pessoas com quem tenho contato até hoje. Guardo boas e más recordações. Lembro-me do pastor Edelto, já falecido, da Primeira Igreja Batista de Petrópolis, local onde tive minhas primeiras impressões sobre religião. Lembro da doçura das suas ponderações. Da forma como lidava com a religião, sem nunca colocá-la como um cabo de chicote.
Minhas conversas sobre política e religião com o pastor Victor Hugo Queiroz com quem tive rápido contato, mas que, em mim, deixou marcas curiosas. Homem de racionalidade. Religião é, sim, um exercício de fé, mas é uma escolha racional. Escolhe-se o que encontrar nesta busca por respostas.
Recordo do pastor Leordino Lopes, hoje presidente do Conselho de Pastores de Anápolis, a quem entrevistei tantas vezes. E que na tarde da última quinta-feira fui ter novamente para tentar encontrar explicação para a bestialidade cometida na UniEvangélica. Conversei como ele por dois momentos. Ele precisou tomar conhecimento do ocorrido, através do reitor do centro universitário, pois ele mesmo não quis crer no relato que foi manchete deste jornal há uma semana. Compreensível.
No retorno da ligação, o sempre carinhoso Leordino me explicou que não conseguira conversar com Carlos Mendes, o reitor. Mas reiterou a mesma fala que me disse na primeira ligação e que, por opção pessoal não haverei de transcrever para que isto não gere incomodo a ele, como se este material tivesse por objetivo colocar a instituição e seu reitor em linha de tiro com o presidente do Conselho de Pastores de Anápolis. Não tem.
O que me chamou mais a atenção na fala do amigo Leordino não foi o seu conteúdo, mas a preocupação, a consternação de um religioso em torno da tristeza do ocorrido. Ele ficou repetindo seu lamento por diversas vezes num tom grave de quem sentiu a imbecilidade do ato. E excetuou por cautela e precaução o seu autor, e eu aqui também o faço: eu e ele, ali naquela ligação, percebemos que mais grave no episódio vivenciado por uma artista na UniEvangelica, não era o mensageiro, mas sim a mensagem passada.
Isto me tocou a tal forma a ponto de construir este texto desta forma, e não de fazer uma análise agressiva e contundente. Desconstruir a atitude de Carlos Mendes por conta deste episódio seria tarefa muito, mas muito fácil. Até porque publicamente, ele está isolado. Ninguém, ainda que pense – ato de achar intimamente e em silencio – como ele, terá motivação suficiente para defender uma atitude desta natureza. É como discriminar negros e homossexuais. O preconceito existe. Mas está no íntimo de cada um, bem guardado.
Portanto, não há quem aponte um dedo a Carlos Mendes, ou a ninguém, e diga que ele merecia ou não uma resposta tão agressiva quanto a atitude que cometeu ao expulsar uma artista especializada em arte sacra de suas dependências. Não importa a culpa ou o merecimento dele. O que deve ser alvo de preocupação é a mensagem do ato em si. E eu vi isto na voz grave de Leordino. Carlos Mendes não agiu por religião, mas por política. Ele não brigou por Deus, porque Deus não lhe outorgou uma tarefa tão acima de sua capacidade limitada. Sua medida, ali, foi de política: a ideologia que defendo está acima da sua. E pronto.
Mas quando conversei com Leordino, percebi que ele conversava sobre fé e credo.
Quando entrei naquela igreja escondida, cuja missa é rezada na teatralidade do latim – e quando deixei de ir – eu estava respirando e buscando fé. Quando me dedico a escolher alguns homens, como os citados nominalmente acima, para ouvir o que eles têm a dizer, eu estou querendo que a fé deles me persiga e em mim faça morada. Política religiosa é a mais fácil de se fazer porque a desculpa e justificativa mais plausível todos têm: é em nome de Deus. Mas o assunto deste artigo não é este.
Eu já vi coisas se mexerem à minha frente de um lado para outro, já vi gente falando em línguas esquisitas, já vi pessoas serem curadas de doenças terminais. Eu já vi coisas absurdas serem invocadas e vi milagres acontecerem. Eu acho até que já senti Deus mexendo em duas ou três coisas na minha vida. Isto é fé, é credo e, em última análise, isto é o transcendental se manifestando sem que você faça idéia ou tenha controle do que esteja acontecendo.
Mas eu também já deixei uma sala de aula de terceiro grau, de um dos quatro cursos que freqüentei, porque a professora disse que o ateísmo era uma imbecilidade. Saí. Não sem antes citar metade das sandices geniais de Nietzsche sobre a religião e o Deus da “modernidade”. Mas isto não é fé. É política. Assim com a professora, como o filósofo alemão e como Carlos Mendes, há muitos jogando em cima de Deus e de Sua suposta vontade uma porção de atitudes estúpidas e agressivas. Mas isto, todos sabem, é política. Porque qualquer ser vivente é capaz de entender que a fé e o credo não estão em uma imagem, em um conto de madeira ou de marfim, em um livro mal traduzido, e às vezes maldosa e tendenciosamente mal interpretado.
Fé é o que percorre seus olhos quando vocês os fecha. Deus caminha pela sua vida quando você dorme e não O está importunando com desejos, anseios, movimentos calculados. Aos homens de batina, de gravata ou de avental, é que importa tanto a fé quanto a política do credo. A eles, corretamente, cabe decidir a política da religião. São eles que cuidam dos grandes grupos. A nós, cabe cuidarmo-nos de nós mesmos.

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Eu sigo o meu caminho, como muitos, entre a beleza da fé, do contato com o lógico, ilógico e o translógico, esta a pura manifestação do divino superior. Sigo também desviando do mau cheiro do oportunismo, da ignorância beligerante do fundamentalismo, dos que misturam política de dominação com o carinho do conforto da doutrina espiritual que se lhe faz parte.
Vou buscando conhecimento, em caminhos estreitos, ruas largas, em busca da paz e da tranqüilidade espiritual. Porque se em vida pouco me falta a presença dentro de mim de uma religião que me sirva de muletas, sei que haverá de haver um encontro futuro com a suprema criação que concebeu a vida e que dela tomará conta de volta. E quando este dia se apresentar, eu gostaria de estar mais sereno, mais seguro, mais sábio e menos confuso, para que, se houver uma luz, ela não me cegue, mas me guie. Não me queime, mas me aqueça. Não me confunda, me esclareça.
Mas enquanto não me repouso neste descanso de fé em vida, vou seguindo suportando o peso do meu corpo andando sobre os meus pés cansados, e outros pesos inerentes à humanidade. Vou desviando da estupidez e da intolerância. Esquivando-me, com rapidez mas tristeza, dos donos da verdade que, arrogantes que são, tornam-se ainda mais risíveis e patéticos ao serem desmascarados como seres cuja limitação intelectual chega a níveis tão irrisórios que se acham, eles mesmos, deuses soberanos de uma verdade que nem a ele, e nem a ninguém com absoluta certeza lhe foi revelada.
A maior tarefa do homem, de hoje e de sempre, é se suportar sem que precise para isto, arrancar a vida do outro para que tenha razão. Conviver com o que lhe incomoda é o que mais nos afeta. Desde, vejam só, Caim e Abel.
Abracemo-nos. Não em uma religião, não no seu, no meu ou no nenhum Deus. Mas, somente – em nome do respeito e da caridade que todas as seitas, do oriente ao ocidente, pregam – abracemo-nos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O ‘bumba meu boi’ das eleições

Empresário concede entrevista que promete ser o primeiro grande marco deste pleito, causando e gera medo e revolta em tucanos: declarações fortes e categóricas obrigam aos envolvidos no ‘fenômeno friboi’ se manifestarem o quanto antes

 


A entrevista era uma formalidade. Empresário de grande sucesso e uma referência mundial no segmento que atua, José Batista Junior resolveu entrar para o meio político. Terreno árido, onde nem mesmo o gado mais forte, se não for experiente e preparado para aquele chão específico, não prospera, Junior do Friboi, como é conhecido, tem se movimentado há alguns anos entre alguns partidos, feito contatos importantes com políticos e dirigentes e parece que, neste ano, vem com força e disposição para disputar uma vaga. Nem que seja na marra.
Dono de patrimônio incalculável para grande parte da população, o empresário nem mesmo tenta evitar a pecha de que está tentando “comprar” o mandato que escolher. E na mira está uma vaga no Senado ou a vice do PSDB, que tem como pré-candidato Marconi Perillo. Mas eis que no início da semana passada, Junior concede uma entrevista. E então, tudo o que parecia uma suspeita de problema, configurou-se em uma verdadeira tragédia para gregos e tucanos.
Conforme já mostrado em reportagem-análise na página 7 desta edição de O Anápolis, os desdobramentos das declarações de Friboi dentro do DEM não poderiam ser medidos de outra forma a não ser numa escala de hecatombe geral. A revolta de Ronaldo Caiado foi verbalizada por denúncias, xingamentos e promessas de interpelações judiciais.
Com isto, a primeira baixa em decorrência das falas desastradas de José Batista Junior já foi atestada. Porque, além de Ronaldo Caiado, presidente da legenda, o senador Demóstenes Torres ainda entrou na briga. Ele fez duras críticas ao empresário, evidenciando que o poderio econômico dele é o que está seduzindo partidos e quadros políticos a fim de permitirem a sua chegada ao processo eleitoral pela porta da frente e por cima, ou seja, já postulando espaço na senatória ou na chapa do executivo.


Mal no ninho
Mas não foi somente dentro do DEM, com os problemas envolvendo Caiado (veja reportagem na página 7) que a entrevista concedida na última segunda-feira a O Popular gerou incômodo. Até mesmo no PSDB de Marconi Perillo houve um início de preocupação com o incêndio que as declarações podem causar. Afinal, são afirmações categóricas que podem e deverão servir de armas contra os tucanos.
A principal delas é quanto aos acordos entre as partes sobre quem fica no poder e por quanto tempo. A tática do revezamento de mandatos, formando a tão combatida panelinha de 1998, ficou evidenciada pelo empresário que disse ter um acordo com Marconi Perillo para que ele deixe o governo em três anos e três meses de mandato para que ele assuma, vá à reeleição e, depois de 3 anos e três meses, passe o bastão para outro. Nem Nerso da Capitinga, o ingênuo matuto personagem-chave na eleição do Tempo Novo, acreditaria em tamanha inocência de um político em revelar as tramas intimas dos acordos feitos às escuras.
O espanto da repórter responsável pela entrevista é tanto diante da mostra do acerto, que ela insiste ao entrevistado: isto está planejado com Marconi Perillo? Ao que recebe como resposta: eu não entraria se não fosse dessa forma. A subida à superfície de tamanha sandice somente aponta que o caminho de Marconi Perillo e seus aliados está bem traçado, já garantindo a chegada ao poder a sua perpetuação, jogando pela janela a idéia da renovação, do fim das panelas. O que Junior do Friboi mostra é que o grupo marconista não é contra a “panela”, mas sim contra a posição em que se está em relação a ela: se dentro ou fora.


O empresário Junior do Friboi e sua especialidade, os bois: "huuuuuuuuuummmmm"

'Simplesmente' vice
O loteamento do governo também foi abordado por José Batista Junior. O empresário, acertando sua ida à vice, pretende ter pastas estratégicas do governo ligadas a ele somente. “Propus para o Marconi, eu indo para a vice, de criar uma secretaria de relações internacionais e desenvolvimento e que eu possa cuidar dessa parte. (Criar também) algumas secretarias ligadas a mim, alguma coisa bem mais ampla do que simplesmente ser vice”.
Junior ainda reduz ao cargo de segundo homem mais importante no comando do Estado a uma tarefa menor. “Não vou largar meus negócios, não faz sentido nenhum até porque não preciso disso para simplesmente ser vice”. E aponta mais caminhos já combinados “O que tenho combinado com o Marconi e com a base é que não viria para o debate político simplesmente como um vice, sem atuação nenhuma”.


IndecisãoOutra declaração de grande impacto dentro do ninho tucano foi quanto ao apoio a Dilma, uma vez que o seu PTB integra a base de Lula. Dentro da idéia do “nem sim, nem não, muito pelo contrário”, o empresário diz que pretende se manter ausente do debate político em âmbito nacional, mas jamais contra a candidata de Lula à Presidência.
Isto, em um momento de intensificação da polarização entre Serra e Dilma, chega aos ouvidos tucanos como uma ofensa. Como imaginar que um vice de Marconi Perillo pode ser incapaz de criticar ou mesmo de se posicionar em relação a Dilma e o seu embate com o candidato José Serra? A resposta, novamente clara e categórica, causa medo e desconforto nos tucanos e aliados marconistas.
“Quem é candidato a governador é ele [Marconi]. Eu disse para ele que espero que nós façamos uma campanha ética e de propostas. Agora, se ele quiser falar no palanque ou xingar alguém, o problema é dele, não vou compartilhar com isso. Não preciso ir lá. Quem me falou isso foi o presidente do partido, Jovair Arantes”.
Entre a cruz e a espada, no caso entre os ‘investimentos’ em campanha e a tolerância de um neófito dos mais temerosos ao lado, o que escolher?
A fatídica entrevista, que tem tudo para ser o primeiro marco desta campanha quando, no futuro for analisada criticamente, força aos envolvidos diretos ou não ao caso a se posicionarem. Aguarda-se a fala de Marconi Perillo para saber a veracidade do loteamento do governo que nem mesmo foi disputado, quando mais vencido, da intenção e do acerto fechado para a manutenção do poder através da troca de posições. E, ainda, aos tucanos históricos em se manifestar sobre como aceitar um vice que não consegue defender Serra e é incapaz de criticar Dilma.
Por fim, é preciso também ouvir o presidente do PTB no Estado, Jovair Arantes, para ter dele a confirmação de que acertou com o megaempresário este passe livre para que não precise se imiscuir em questões da política nacional.
Observando a entrevista em perspectiva, percebe-se um grande empresário tentando ter um status que ainda não tem: o de estrela da política. Sua intenção, a de usar o poderio financeiro para ‘adquirir’ um mandato não é nova e se mistura com a história da política. A novidade, neste caso, é vê-lo fazer isto com tamanho descaramento e desfaçatez, assumindo uma transparência perigosa e, por vezes, insana para o mundo já fraquejado da política.



segunda-feira, 22 de março de 2010

Celg, o pau de bater em doido

A Celg está quebrada. É um fato, por mais que se tentem manipular dados, versões e explicar acontecimentos de acordo com as próprias conveniências, que a empresa necessita de ajuda urgente diante da sucessão de estragos e rombos feitos ao longo de anos de desmando e abusos, políticos e de outras naturezas, estas já mais obscuras.

Esta realidade é algo que vem sendo construído, bem como as sucessivas revelações dos problemas da estatal goiana que vem tomando a mídia e ganhando o conhecimento e atenção da população goiana. Agora, no entanto, o quadro evoluiu e a empresa estatal de energia tornou-se um calcanhar de Aquiles para diversos grupos políticos.

Além das planilhas e números estrondosos, a Celg entrou, além da pauta financeira e contábil, também para a agenda política de partidos e candidatos. Cada um, da sua forma, quer usar a Celg para defender-se ou atacar o adversário. E veja só que situação curiosa: não estão usando um avanço, mas sim um rombo, como instrumento de guerra. A situação é, no mínimo, tragicômica.

De lado a lado, PMDB e PSDB usam o mesmo instrumento, em contextos diferentes, para trocarem acusações. Um desanca o outro sob a nuvem nebulosa da culpa pela “quebra” financeira e o sucateamento da empresa. Os tucanos usam o argumento batido da venda de Cachoeira Dourada. Os peemedebistas se esquivam do golpe e retomam o discurso mais em voga: os efeitos da gestão dupla de Marconi Perillo em Goiás no processo de definhamento da estatal.

No meio deste ringue está um terceiro elemento que ora é juiz, ora é alvo dos adversários. O governo de Alcides Rodrigues atua como um gestor que tem acesso e visão ampla de toda a documentação que se refere à saúde financeira da empresa e, por isto mesmo, tem autoridade e segurança para bater o martelo e dizer o que ocorreu com as Centrais Elétricas de Goiás, por ocorrência de todos estes anos. Antes com o PMDB no comando e, depois de 1998, com os tucanos cuidando das linhas de transmissão de energia.

Mas engana-se quem pensa que nesta luta, nada justa e muito ausente de regras, o juiz é elemento neutro e soberano. Ao contrário, volta e meia, um dos adversários se preocupa em atacar este juiz. O governo alcidista é invariavelmente golpeado pelos tucanos. Isto porque a Secretaria de Fazenda, sob o comando de Jorcelino Braga, vem evidenciando o grande rombo deixado pelos oito anos do tucanato à frente do Executivo goiano e, em especial, as conseqüências deixadas na saúde da Celg.

Para o deputado federal Rubens Otoni (PT), a intenção de partidos e pré-candidatos em usar a Celg como espada para atacar adversário ou, pior, tentar desancar o governo de Alcides Rodrigues é, no mínimo, uma covardia. Através do espaço democrático e cada vez mais popular do Twitter, o parlamentar petista, ao lado de jornalistas de renome no Estado e outros políticos debateram intensamente esta semana sobre o caso. “Num momento importante de busca de solução para a Celg, tentar encurralar o governo e inviabilizar ações é pensar pequeno”, dispara Otoni. Para o deputado, existe uma vontade política e técnica de todos os envolvidos no governo atual a fim de dar uma solução ao problema. “Trabalha-se mais de dois anos uma solução para um problema deixado por várias administrações. Quando encontra-se a solução um tenta impedir, e o outro tenta se aproveitar do momento para buscar outros interesses”, completa Rubens Otoni, fazendo menção justamente à dupla presente no ringue: PSDB e PMDB.

“Sou testemunha do esforço de todo o governo na busca da solução. Aqueles que quebraram a empresa não querem que alguém a salve”, diz. Otoni é direto e faz referência à dificuldade encontrada na Assembléia Legislativa e até mesmo em setores mais tucanos do governo para se ter acesso a dados e informações precisas acerca da realidade da estatal.

Rubens completa, ainda, afirmando que no meio deste verdadeiro cabo-de-guerra, há quem aprove este tipo de atitude e aplauda o circo formado. “O momento é de, independente de partido político, unir as forças e aproveitar a oportunidade de negociação que foi dada. Porque atrasar isto é não pensar nos interesses do Estado. É não ter preocupação com a solução do problema. É apostar no quanto pior, melhor”, resume.

O “quanto pior, melhor” do momento tem hora e local para acontecer. E pessoas envolvidas, que atuam bem claramente dentro deste, digamos, espírito. Mais recentemente uma bancada do terror está travando a pauta que redefine a empresa estatal e a sua parceria com a Eletrobrás. Segundo Alcides Rodrigues, este é o último passo a ser dado e, por questão de tempo, a Celg – ainda – tem solução. Mas é preciso agir rápido. E, neste caso, agir com celeridade é tudo o que esta bancada não quer.

Ao contrário, temem o surgimento dos primeiros ossos do grande esqueleto escondido no armário da empresa, já que o governo tucano é o franco suspeito de ter promovido um curto-circuito nas contas da empresa. Antes do tucanato, o PMDB regeu o Estado e, claro, por lá também passou. Então, adversários em tudo, agora, se unem com dois objetivos.

O mais proeminente é o de tentar esconder o que for possível neste grande rombo financeiro. E o outro, igualmente arquitetado, é o que não permitir que o governo Alcides fique com a fama de que conseguiu salvar a empresa da falência eminente. Se conseguir isto, o discurso que mantém hoje, de que pegou a maquina estadual quebrada e trabalhou arduamente nos quatro anos para consertá-la, vai começar a fazer enorme sentido. A começar pelo conserto da Celg.

Ainda no terreno democrático e libertário da internet, o espaço é preenchido pela polêmica da Celg e são muitos os comentários acerca da realidade encontrada pelo atual governo como sendo “herança” de outras gestões. Para os mais radicais e interessados na defesa do governo alcidista, a Celg, curiosamente, se torna um elo que aproxima peemedebistas e tucanos. “É importante registrar que o PSDB e o PMDB se uniram contra Goiás e contra a Celg. O que será que os une? O fato de terem arrombado a Celg”?, propõe um dos twitteiros em meio à discussão.

Para o jornalista político Jarbas Rodrigues, especializado no comportamento político goiano e responsável pela coluna política mais influente de Goiás, o Giro, de O Popular, a leitura é clara. “A Celg já serviu de cabo de chicote político por muitos anos e chegou nesta situação de insolvência. Enquanto isto, todo o Estado perde”, afirma. Com informações privilegiadas de fontes de grande representatividade em Goiás, o repórter revela. “Um líder do Fórum Empresarial Goiano me disse que um dos entraves hoje para atrair empresas para Goiás é a falta de garantia de energia”.

De fato, não é preciso ter contato com grandes empresários ou ter acesso a informações confidenciais para saber que a energia elétrica é um dos problemas mais sérios enfrentados pela população em Goiás. A recorrente falta de energia somente reafirma a fragilidade do sistema: basta uma ameaça de chuva para que em diversos pontos do Estado falte energia. Em Anápolis, a situação é recorrente há vários anos.

“O governo quer se cacifar com a Celg/Eletrobrás. Ao PSDB não interessa isto, e o PMDB agora faz beicinho. Pergunta: e nós com isto?”, indaga o jornalista Jarbas Rodrigues. A pergunta, dele e do povo goiano, até o momento, segue sem resposta.